QUARENTENA | Episódio 1, temporada 2

Imagem: Reprodução/TV UOL

Não dá para negar que já nos acostumados ao cotidiano digital em que vivemos. Em home office há mais de seis meses, meu quarto ainda é minha “bolha” na vida e no trabalho. Pela janela, vejo uma paisagem cinzenta e, na outra, 4651 e-mails (sem exagero!) me aguardam para serem respondidos. Entre computador, celular e TV, a vida vai passando entre telas, câmeras e microfones.

Acredito que a quarentena seja uma espécie de retiro espiritual. Todos se habituando a novas rotinas de trabalho, convivência na família e alimentação (fui promovido a rei do delivery, confesso). Mesmo parecendo um tempo de descanso, esse spa particular fez um bom detox em nossas vidas. Imagine o combustível que já economizamos não indo e voltando ao trabalho, das saídas desnecessárias ao cinema para ver aquele filme badalado que, no fim das contas, nem gostamos. Além daquela peça de roupa esquecida na gaveta que foi mais uma compra por impulso (um clássico!).

É claro que os números da pandemia nos assustam, e as consequências mais ainda. Mesmo assim, não deixamos de perceber o que realmente importa. Consumir, nesse tempo (quase) pós-pandemia, tem outro valor. Como diria Camões, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.

E o que realmente faz sentido hoje? Quando vi a imagem de Jennifer Aniston – a eterna Rachel Green, de Friends – nos preparativos para o Emmy deste ano, para o qual foi indicada na categoria de melhor atriz por sua atuação na série The Morning Showcomecei a pensar sobre isso. No sofá de pijama e com toalha na cabeça, a atriz levanta uma taça de champanhe e manda beijo colocando o skincare em dia. Um outro nível de consciência nasce naquele momento. Aquele brilho glamouroso foi por água abaixo, escorrendo por telas e scrolls nas redes sociais. Se roupas não transmitem mensagens, não sei o que seria do espírito do tempo.

Ficar em casa nunca foi tão devastador para repensarmos o que fazemos (ou não) de nossas vidas. Ainda que as paredes nos aprisionem, a conectividade abre portas para o mundo online. Físico e digital medem forças em uma queda de braço acirrada. Quem vence? O bom senso, certamente. Pense em uma batalha de looks: pijama de algodão e pantufas versus calça e camisa social. O vencedor é mais do que óbvio para um espaço repensado na própria casa.

Ainda penso que a pandemia também seja uma espécie de série “bem cotada” pela crítica e pelo público. Ao longo dos episódios, há muitas reviravoltas, tramas e personagens entrando e saindo de cena. Um roteiro escrito por todos e ninguém. Depois da primeira temporada polêmica, eles voltam em outro enredo com mais força e maturidade. A diferença é que, na pandemia, não há como saber spoilers, pular a abertura e os episódios, muito menos especular se será cancelada. Na vida, todos somos espectadores e usuários de nossos próprios serviços de streaming

Ivan Reis é graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Linguística Aplicada. Atua como revisor e preparador de texto, mas gosta mesmo é de ler, escrever e tomar sorvete nas horas vagas. E-mail: ivan.reis@hotmail.com