CAMISETA | Recorte de cores, memórias e sentimentos

James Dean e Marlon Brando deram um status fashion à camiseta por suas atuações em "Um bonde chamado desejo" (1951) e "Juventude transviada" (1955). Crédito da Imagem: Site Sou de algodão

Organizar armários em casa pode ser mais interessante do que parece, especialmente nesta confusão chamada pandemia. Revirando fotografias, a noção de passado fica mais clara. Vemos imagens que suscitam lembranças e, nesse processo, deparamos com algo que parece estar sempre presente: a camiseta.

Já parou para pensar em como uma peça simples pode nos acompanhar a vida toda, mesmo com mudanças de corte, estampas e modelos? Pois é.

Nesses dias, encontrei duas caixas enormes de fotografias. Por descuido meu, ambas foram ao chão. “Não sei o que fazer com isso”, pensei na hora. Até que as imagens se espalharam e pude notá-las de perto. Crianças ao redor de um bolo com doces e papéis de bala, escadarias do colégio, formaturas, casamentos, aniversários, viagens e algumas poses inusitadas. De tudo o que me chama a atenção, a camiseta tem lugar cativo. Questão de gosto? Pode ser. Inevitavelmente, a peça é popular, democrática e parte do guarda-roupa de todxs.

Um hit, vários modelos, muitas estações. A camiseta nos diz muito sobre os momentos da vida. Lembra da época escolar, quando a T-shirt, já desgastada pelo tempo, era rabiscada com assinaturas, desenhos e tudo o que a imaginação permitisse? “Férias!”, cheguei a explodir de felicidade no pátio, depois da foto com a galera.

Power Rangers, Os Simpsons e a Turma da Mônica já viveram no meu guarda-roupa, sabe? Eram os anos 90, a televisão era um membro da família e a Era Jurássica da internet havia começado. Mario Brothers e Parque dos Dinossauros (meus preferidos da vida!) passavam das telas para as roupas como num passe de mágica. Usar aquilo de que gostamos tem muito valor quando somos crianças. Já pensaram nisso? “Deixa para quando você sair”, minha mãe dizia. Eu usava assim mesmo. Nenhuma tendência é mais importante do que o nosso bem-estar.

Impossível passar batido pelas camisetas de bandas de rock. Já tive uma estampada com a logomarca dos Rolling Stones. Aquela boca enorme com a língua de fora é antológica. No começo dos anos 2000, o resgate do rock das antigas foi intenso… e muito bom, no fim das contas. A playlist do meu quarto continha Nirvana, Oasis, Charlie Brown, Kid Abelha e tantas outras bandas da época. Uma bagunça de livros, revistas e uma vontade louca de entender que mundo era aquele em que eu embarcava. Ainda me lembro de camisetas com letras de músicas nas costas. Viram como usar o que se gosta é importante? A peça foi do terceirão para a vida.

Percorrendo a História, a camiseta, antes da efervescência de estilo dos anos 60, era usada como roupa de baixo e muito comum no vestuário de operários e soldados do exército americano. A peça ganhou uma aura fashion com Marlon Brando e James Dean por suas atuações de bad boys no cinema. O corte ajustado marcava os músculos dos atores que escancararam o traje para o mundo. Desde o começo, um statement. Jaqueta de couro, camiseta branca e jeans é um trio de sucesso que conquista o guarda-roupa masculino até hoje. Mais uma prova de que a arte imita a vida e vice-versa.

Mas a camiseta também é um desabafo, uma mídia para protestar e colocar a boca no mundo. Não por acaso, Maria Gazia Chiuri, diretora criativa da grife Dior, colocou na passarela, em 2017, uma camiseta com a inscrição “We should always be feminists” (Todos nós devemos ser feministas). A peça refletia o momento em que a designer foi a primeira diretora artística feminina da maison francesa. E também foi combinada com vestidos e tênis que exaltassem a força do feminino ao som de “Flawless” de Beyoncé, um single que diz muito sobre o poder de ser mulher.

Modelo reconhecido universalmente, a camiseta veste todos os gêneros, idades e gostos. Pudemos usá-la como quisemos em várias circunstâncias. Lisa ou estampada, baby look ou oversized, por dentro ou por fora da calça, ela é um recorte de tecido democrático que fala sobre nós, nossas escolhas e (porque não?) nossas vidas.

Voltando à minha faxina no isolamento social, reformulo o pensamento do começo deste texto. Realmente, “não sei o que fazer com isso”; só sei que têm importância. Porque são lembranças. As fotografias esparramadas no chão formaram para mim um mosaico de cores, memórias e sentimentos. Recordar o uso das roupas foi mais do que viajar no tempo. Foi um singelo exercício de liberdade. 

Ivan Reis é graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Linguística Aplicada. Atua como revisor e preparador de texto, mas gosta mesmo é de ler, escrever e tomar sorvete nas horas vagas. E-mail: ivan.reis@hotmail.com