ENGENHARIA REVERSA | A guerra de narrativas e o assassinato de reputações

Créditos: Print de Tela Netflix

Hoje é dia de caça.

No caso, às baratas; não às bruxas.

Os soldados estão animados, o novato recebe instruções, a equipe segue para a ação.

Ao que tudo indica, uma aldeia mais a leste foi atacada pelos cosmopolitas insetos e os aldeões estão assustados. “Invadiram uma mercearia e roubaram coisas”, informa a séria instrutora ao esquadrão. Os moradores não têm lá muitas certezas, mas acreditam terem ouvido os asquerosos monstrengos, quando do assalto ao local. “Faça com que parem de vir. Por favor. O meu filho está apavorado”, invoca uma mulher ao especulativo e novato soldado Stripe.

Um popular acredita que as baratas tenham seguido em direção à casa de um tal Parn Heidekkar, “um morador bizarro, um esquisito religioso”; alguém não muito sociável, com problemas mentais e “um ponto de vista interessante sobre as baratas”. Pessoas já tinham prestado queixas contra ele por deixar os insetos passarem por sua propriedade e fornecer-lhes comida, explica o aldeão aos soldados.

A equipe chega à casa de Heidekkar e ele é interrogado. A loira sisuda – Medina, o nome dela – tenta com que o senhor entregue a localização das tais baratas. Para convencê-lo, usa técnicas persuasivas. Diz entender que as baratas não tenham pedido para nascer assim, com alguma “merda no sangue”. Pede para que ele tenha mais empatia pela dor das “pessoas” que sofrerão no futuro, caso haja a proliferação dos bichos. “Se não detivermos as baratas, daqui a cinco, dez, 20 anos, ainda vão nascer crianças assim, e vão se reproduzir. E esse ciclo de dor não vai parar nunca”, disserta Medina enquanto soldados vasculham os cômodos. “Para cada barata que você salva hoje, condena sabe-se lá quantas pessoas ao sofrimento no futuro. Não é possível que ainda as veja como humanas. É um sentimento errôneo.”

Enquanto a líder constrói seu discurso, nós, espectadores, nos encontramos com as criaturas por meio de Stripe. Aparentemente, são monstros verdadeiramente temíveis. Pálidos, olhos fundos, dentes irregulares, sanguíneos. Ensanguentados.

Há luta. [De narrativas], de armas, de mãos.

Há morte.

Há ameaça aos “defensores de baratas”, esses “indignos de viver”.

Há disputa entre militares pela maior quantidade de assassinatos e há um problema no dispositivo (a “Máscara”) implantado na cabeça do soldado Stripe.

Por causa da disfunção em sua Máscara, Stripe precisa empreender uma bateria de exames e consultar uma espécie de programador psicológico. Confessa que, ao lutar manualmente com um dos monstros (logo, ao aproximar-se fisicamente da criatura), acabou por encontrar um estranho dispositivo portado por ele. Após fazer uma série de perguntas sobre como o recruta se sente agora e como sentiu-se ao entrar em contato com a engenharia do outro, o especialista constata que tudo está sob controle e o dispensa.

Estamos em nova missão. O senhor Heidekkar parece ter apontado o local para onde as baratas costumam ir. O novato Stripe, no entanto, não demonstra estar muito à vontade. Acontece que, após a aproximação com o monstro, a sua sensibilidade está aguçada e ele se dá conta de que algo diferente paira no ar: sente o cheiro de grama. De grama, vejam só. Stripe percebe que já há algum tempo não sente muita coisa. Nem cheiro [nem empatia].

Enquanto o soldado apura os próprios sentidos, a equipe é atacada e Medina, a líder, assassinada. Novo embate é empreendido e a dupla Stripe e Ray decide invadir o prédio de onde parte o ataque. É nesta invasão que Stripe encontra com um dos mons… Espere, parece uma pessoa ali. Uma mulher. Carne, osso e razão. Gente como a gente. Mesmos medos, mesma expressão desesperada, mesma capacidade de sentir…

O monstro-mulher é assassinado.

Onde Stripe via um ser humano, Ray, sua colega de equipe, enxergava uma barata. Ao tentar impedir a matança indiscriminada da parceira, a sanidade mental do recruta também é colocada em cheque.

Só que ele não está louco. Muito pelo contrário. Considerando que neste episódio de Black Mirror um dispositivo é implantado na cabeça de militares para fazê-los enxergar seus supostos inimigos como monstros; agora, com seus sentidos despertos pela engenharia encontrada na aproximação com o outro – uma máquina de flashes de luz que, acreditava-se, interferiria no mecanismo introjetado pelo exército –, Stripe parece mais lúcido que nunca.

“Você me vê como eu sou”, admira-se um dos “insetos” dirigindo-se ao ex-algoz. O soldado não entende a surpresa. É claro que consegue enxergar e ouvir a pessoa com quem está falando. Ela é tão gente quanto ele, não é? Apenas as baratas, e os monstros, e os demônios, e as criaturas abjetas, e os insetos [e os fascistas e os comunistas e os direitistas e os esquerdistas e os bolsonaristas e os petistas…] não são entendíveis.

Depois de explicado todo o imbróglio responsável por transformar pessoas em monstros, Stripe pode até engolir a narrativa de que o exército havia, tecnicamente, alterado a forma com que militares se relacionavam com os opositores. Mas e os civis, ele pergunta à “criatura” que, agora sabemos, se chama Catarina. Os civis também dizem que as baratas são baratas e as temem enquanto baratas. “Eles nos odeiam porque foram ensinados a odiar”, responde Catarina.

A população civil os via em formatação humana, mas acreditava que o sangue deles estava contaminado. Depois da guerra e consequente triagem de DNA, todos começaram a chamá-los de criaturas imundas, continua a moça. Todos, ensejados pela TV e por computadores, passaram a julgá-los doentes, de sangue fraco, e adotaram a narrativa de que aquela linhagem não podia continuar existindo.

Intentando a eugenia (a seleção de uma coletividade baseada em leis genéticas e consecutiva extinção de certas raças), a liderança daquele cenário de Engenharia Reversa tentava cooptar soldados que, mascarados – e aqui “a máscara” faz menção ao conceito de “persona”[1], de Carl Jung –, não reconhecessem a humanidade do seu opositor, o que engendraria mais facilidade e menos trauma na hora de exterminá-lo.[2]

“A ‘Máscara’ cria assim uma ‘persona’, um duplo produzido do sujeito moldado como uma máquina de guerra cuja mente é fruto de uma manipulação por instrumentos de comunicação e informação.” (LEMOS, 2018, p. 105).

“Humanos”, lamenta o programador do exército a um confuso e encolhido Stripe, “Nós nos damos uma má reputação, mas temos grande empatia como espécie. Não temos vontade de matar uns aos outros, o que é bom. A menos que seu futuro dependa da extinção do inimigo”, justifica o especialista, e então passa a narrar casos históricos em que soldados enviados à guerra optaram por não atirar no adversário e comenta das más condições psicológicas com que esses militares voltavam dos embates bélicos, depois de empreendido o assassinato de pessoas.

Para remediar essa situação, segue o programador, os técnicos precisaram se aprimorar. E “as máscaras”, ele diz, “são a maior arma militar de todas. Ela ajuda com as informações, com a mira, com a comunicação e com o condicionamento. É muito mais fácil puxar o gatilho mirando no bicho-papão.” Mas isso é tudo mentira e assassinato, argumenta Stripe. “Não, meu amigo. Não podemos implantar uma ilusão. Sua mente rejeitaria. Você precisa aceitá-la. De bom grado. É exatamente o que você fez”, rebate o técnico.

E é verdade. Stripe havia aceitado que implantassem em sua mente uma forma mascarada de ver a realidade. Exatamente como fazemos no dia a dia.

Guarde essa informação: para traçar um paralelo entre a série e as eleições brasileiras de 2018, precisaremos observar alguns aspectos na Engenharia Reversa de Black Mirror. O primeiro ponto a ser considerado é o comportamento do exército ao induzir, por meio de dispositivos, os seus militares combatentes a eliminarem quem eles consideravam inimigos. O segundo comportamento carente de análise é o dos militares; estes, mascarados, se tornaram insensíveis às características humanas do outro. Um terceiro aspecto diz respeito ao comportamento da sociedade civil, que, impulsionada por uma narrativa criada pelos detentores hegemônicos da comunicação, passa a repelir energicamente “os inimigos”.

Também não podemos esquecer o senhor Heidekkar, defensor das baratas, reputado como senil por protegê-las. E há, ainda, Stripe, que só após ter se aproximado dos monstros, começa a questionar o sistema. Somente após o contato com a engenharia do outro – e esta engenharia pode, em nosso mundo, simbolizar perfeitamente o diálogo, a comunicação –, o soldado enxergou este outro de forma diferente, humanizada.

Por último, há a história de como tudo aquilo começou. E é pelo resumo da nossa própria história que começaremos a nossa exposição.

Porque também estamos em guerra.

No nosso caso, de narrativas; não de armas físicas.

Os jornalistas e analistas políticos mais afoitos dizem que a nossa guerra começou com o PT, seu culto à figura de Lula e a classificação de fascistas que o partido e seus correligionários conferiam aos divergentes, marcando notadamente o nós contra eles brasileiro.[3]

Cabe, no entanto, voltar um pouco mais na história. Não podemos, no fim das contas, ignorar que a conduta da humanidade sempre foi marcada por injustiças, guerras, [desejo de] dominação e submissão. Nenhum destes comportamentos faz parte apenas da imaginação do humanista francês Étienne de La Boétie[4], do revolucionário Karl Marx ou do Partido dos Trabalhadores do Brasil (cito o PT por ter se tornado o maior representante de centro-esquerda no país[5]).

Rico versus pobre, branco versus negro, heterossexual versus homossexual, homem versus mulher, são representações dicotômicas de relações genérica e historicamente marcadas pela dominação do primeiro em relação ao segundo. Se isso foi inventado, não o foi pela crítica. Fato.

Historicamente, prescindindo ou não das armas, para fazer com que o grupo submisso obedecesse sem questionamentos, o grupo dominante já recorria ao expediente da demonização para fins de banimento público. Isso também é fato.

Aliás, no trecho em que discursa sobre visões imperiais, no best-seller “Sapiens, uma Breve História da Humanidade”, Harari descreve muito bem a narrativa do “nós contra eles” difundida pela humanidade em qualquer época e território que ocupe:

“Nós somos todos responsáveis uns pelos outros, mas não por ‘eles’. Nós somos sempre distintos deles e não devemos nada a eles. Nós não queremos ver nenhum deles em nosso território, e não nos importamos nem um pouco com o que acontece no território deles. Eles mal são humanos.” (HARARI, 2012, p. 204).

Focando a primeira relação citada em parágrafo anterior, a de rico versus pobre, ou burguesia versus proletariado, Karl Heinrich Marx (1818 a 1883), desenvolveu, junto com Friedrich Engels (1820 a 1895), tanto as teorias sobre desigualdades sociais quanto as propostas de superação dessas desigualdades. Então, surgiu o marxismo. Não faz parte de nosso ensaio discorrer sobre qual o melhor ou o pior modelo político-econômico para a sociedade, se o capitalismo ou o socialismo. Cabe dizer apenas que Marx e Engels, responsáveis por estabelecer a teoria orientadora da visão de esquerda no mundo[6], tinham uma forma de pensar a disseminação do socialismo: eles conclamaram os trabalhadores a se unirem para combater seus dominadores de forma ostensiva. A proposta era de uma revolução do proletariado.

O filósofo italiano Antonio Gramsci (1891-1937), por sua vez, discordava que tal revolução devesse acontecer de maneira feroz. Gramsci acreditava em mudança de mentalidade, não no uso da força. Foi assim que ele pensou uma forma específica de hegemonia cultural. Para Gramsci, são as ideias, que, difundidas por intelectuais, alteram o modo com que as pessoas se relacionam com a política. Eis um trecho atribuído ao socialista e exposto em “As Armas da Crítica” (2012), livro de antologia do pensamento de esquerda, organizado por Emir Sader e Ivana Jinkings:

“O critério metodológico sobre o qual se deve basear o próprio exame é este: a supremacia de um grupo social se manifesta de dois modos, como ‘domínio’ e como ‘direção intelectual e moral’. Um grupo social domina os grupos adversários, que visa a ‘liquidar’ ou a submeter, inclusive com a Força Armada, e dirige os grupos afins e aliados. Um grupo social pode e, aliás, deve ser dirigente já antes de conquistar o poder governamental (essa é uma das condições principais para a própria conquista do poder); depois, quando exerce o poder, e mesmo o mantém fortemente nas mãos, torna-se dominante, mas deve continuar a ser também ‘dirigente’. Evidencia-se aqui a consistência metodológica de um critério de investigação histórico-político: não existe uma classe independente de intelectuais, mas todo grupo social tem uma própria camada de intelectuais ou tende a formar uma para si; mas os intelectuais da classe historicamente (realisticamente) progressista, nas condições dadas, exercem tal poder de atração que terminam, em última análise, por subordinar os intelectuais dos outros grupos sociais e, assim, criar um sistema de solidariedade entre todos os intelectuais com laços de ordem psicológica (vaidade, etc.) e, muitas vezes, de casta (técnico-jurídicos, corporativos, etc.)”. (GRAMSCI, 1929-1933[7]).

Reiterando Gramsci, Manuel Castells, no livro em que aborda os movimentos sociais em tempos de internet, afirma que o poder pode ser exercido tanto por coerção quanto “pela construção de significado na mente das pessoas, mediante mecanismos de manipulação simbólica.” Também para Castells, “torturar corpos é menos eficaz que moldar mentalidades”. O sociólogo acredita, ainda, que as “mensagens e estruturas criadas, formatadas e difundidas nas redes de comunicação multimídia” sejam características comuns desses “processos de construção simbólica”.[8]

No Brasil, “o poder ideológico e cultural [da esquerda] foi conquistado antes do poder político”, diz o jornalista Luciano Trigo em seu livro sobre narrativas. O pensamento baseado na teoria hegemônica de Gramsci teria, portanto, ascendido às redações dos jornais, às salas de universidades e aos demais ambientes intelectuais e artísticos do país “muito antes de o PT chegar ao poder”[9]. Como parte desta nova hegemonia, teria havido, então, a disseminação imagética da esquerda como única e real defensora daquelas minorias tradicionalmente sujeitadas: os pobres, os negros, as mulheres, os homossexuais. Nas palavras de Trigo, para alimentar esta configuração, ao chegar finalmente ao poder, o PT teria trabalhado afincadamente no sentido de qualificar “como ‘progressistas’ os próprios valores e ideias” e para “desautorizar como ‘fascistas’ todas as ideias e valores alheios”.

O jornalista atribui ao governo Lula, aliás, o “imperativo moral” governista segundo o qual criticar o governo era inadmissível mesmo quando ele roubava, mentia ou caluniava. Ainda de acordo com Trigo, a narrativa da esquerda teria sido difundida como uma “luta permanente contra o inimigo” para a sustentação de um projeto de poder que autorizava a tolerância ao roubo e à “’corrupção do bem’ em nome da bandeira da justiça social”.

E para chegar-se ao objetivo bastava repetir incansavelmente as desumanidades do opositor, imprimindo socialmente o pensamento de Joseph Goebbels – ministro da Propaganda nazista – de que se contando e repetindo-se insistentemente uma mentira grande o suficiente, as pessoas sistematicamente acabariam por acreditar nela.[10] Assim, os opositores da esquerda se tornaram, indiscriminadamente, burros, fascistas, misóginos, preconceituosos, europeus, brancos, manipulados, pobres de direita e não merecedores de qualquer consideração ou defesa advinda do grupo defensor dos desprivilegiados:

“Não parece exagerado afirmar que muitos brasileiros introjetaram, por diferentes mecanismos – incluindo a necessidade psicológica de aceitação pelo grupo social em que se vive, sobretudo entre os mais jovens – as seguintes convicções: Não votar no PT (ou ter apoiado o impeachment de Dilma Rousseff) é defender a desigualdade social; ser contra políticas de distribuição de renda; apoiar a volta da ditadura militar; ser contra os direitos humanos; ser racista; ser burro e alienado; odiar os pobres; ser contra diversidade cultural; ser machista e desrespeitar as mulheres; criminalizar os jovens das periferias; ser homofóbico; detestar nordestinos; não querer que o filho da empregada estude na mesma escola que o seu filho; ser a favor do trabalho escravo; ser contra pobre andar de avião; ser fascista; ser golpista […]” (TRIGO, 2018, p.28).

No livro “Assassinato de Reputações – Um Crime de Estado”, Romeu Tuma Junior, secretário Nacional de Justiça entre os anos de 2007 e 2010, durante o governo Lula, diz ter sido alvo do governo de que fazia parte – segundo ele, sua reputação foi vilipendiada pelo governo petista – e classifica o assassinato de reputação como uma narrativa que “objetiva tirar, antecipadamente, qualquer credibilidade em eventuais ações e testemunhos.” Para Tuma Junior, esta “é uma forma de buscar desacreditar ou descredibilizar atos ou palavras da vítima, oportunizando prévia desculpa para creditar qualquer ação contrária aos interesses da organização, ou de seus membros, a um sentimento de revolta, revanche ou vingança.”

Em 2016, a esquerda percebia que perdia pouco a pouco a hegemonia narrativa, o que foi simbolicamente representado pelo impeachment da presidente Dilma. Com a divulgação da participação de parlamentares petistas em esquemas de corrupção concomitante à crise econômica e social que assolava o país, grupos com pensamento político marginalizado se formaram e se sentiram no dever de, vindo a público, resgatar o país das mãos dos “marginais vermelhos”. Nesse momento, o “nós contra eles” nacional acirrou-se a níveis estratosféricos. Surgiram variadas narrativas demonizadoras, vindas de todos os lados e atiradas para todos os lados.

Dois anos e um Michel Temer depois da derrubada de Dilma Rousseff, chegamos às eleições de 2018. Agora não tínhamos apenas uma espécie de sangue contaminado na sociedade, tínhamos duas: a dos “fascistas preconceituosos” e a dos “comunistas corruptos”. Qualquer Heidekkar que tentasse enxergar alguma humanidade, bons feitos, racionalidade ou até mesmo hipocrisia na argumentação de ambos os grupos era considerado contraditório, “isentão”, “inocentão”, “trapalhão”, “passador de pano” (para um lado ou outro), detrator de minorias (já que não as defendia conforme o manual), inimigo do Brasil e não merecedor de crédito algum.

Nesse ambiente de condenações sociais realizadas a rodo em favor de um bem maior – eugenia política –, as cognições se confundiram a tal ponto que o ódio travestiu-se de amor. Ou o amor travestiu-se de ódio. A contaminação política infectou amigos, parentes, irmãos e colegas de trabalho. Dificilmente antigos consortes – agora componentes de grupos ideológicos distintos – se reconheciam.

Como diz Luciano Trigo referindo-se ao ano de 2018, nunca se defendeu tanto a tolerância praticando-se a intolerância; “nunca se pediu tanto amor, por favor,” sentindo tanto desprezo. As manifestações eram tão amorosamente virulentas que por pouco não se viu – ainda! – um Ministério do Amor orwelliano institucionalizado em cenário brasileiro. Trigo aponta:

“Os leitores mais jovens podem não acreditar, mas o Brasil não era assim, não. Há menos de duas décadas, amigos votavam em candidatos de partidos diferentes e continuavam amigos. Parentes não deixavam de se relacionar por causa de política. Todos os brasileiros se sentiam à vontade para falar mal do governo sem serem patrulhados ou acusados de odiar os pobres. Aliás, falar mal do governo sempre foi um esporte nacional praticado por todos.” (TRIGO, 2018, p.13).

Como pessoas inteligentes internalizam as narrativas extremistas a ponto de não só aceitar as máscaras detratoras como também de passá-las adiante, demonizando elas mesmas ao outro, é uma boa questão. A psicologia explica. Não nos cabe o aprofundamento das técnicas usadas pelas mentes manipuladoras – e entenda-se como “mentes manipuladoras” o exército de Engenharia Reversa e os políticos [e gurus] dos nossos tempos – para conseguir tal feito, nem estudamos psicologia suficiente para tal, mas alguns métodos merecem ser citados aqui.

Primeiro, cabe admitir que uma considerável sensação de bem-estar acomete qualquer indivíduo que se imagine lutando em prol de um bem maior. Note que eu disse lutando por um bem maior, não exatamente lutando por partidos políticos que se utilizam da defesa do bem maior – ou comum – para chegar ao poder, como geralmente acontece e a gente nem percebe.

Também pode ser assumida a narrativa de que você precisa se defender do inimigo posto (e qual a melhor defesa que não o ataque, interpela-se). O inimigo manifesto, neste caso, passa a ser do eleitor, não dos políticos. Porque eles, políticos, estão lutando pelo eleitorado, não por si próprios. Aliada a isso, temos a propensão massificada de seguir o mestre/a autoridade/o guru. Os especialistas no assunto. São eles, afinal, que entendem todos os processos sociopolíticos mundiais, ao passo que nós muito provavelmente não entendemos nada. Se não entendemos nada, obviamente tampouco somos capazes de desenvolver raciocínio próprio.

E é assim que vivemos com um freudiano “eu” eternamente submetido ao “outro”.

Mas não desprezemos também a emoção resultante do sentido de pertencimento a um grupo e o receio da discordância. Nunca foi fácil colocar-se contra uma narrativa abraçada pelo agrupamento de que se faz parte ou adotada pela maioria da sociedade, afinal. Nós insistimos em acreditar que se algo é aceito pela maioria é porque está correto. Mas não apenas isso. Fato é que se discordamos, corremos o risco da rejeição. E ser rejeitado é tudo o que nós, animais sociais, não escolhemos para as nossas pobres vidas.

O respaldo identitário também faz parte do composto. Neste ponto, precisamos citar novamente Freud, pois foi ele que disse que “a identificação é a forma mais elementar de ligação afetiva com o objeto.” Misture-se a isso tudo certa propensão humana à dissonância cognitiva[11] e, pronto, estão postos alguns dos dispositivos responsáveis por fazer com que pessoas normais – pensando filosoficamente, com tendências internas tanto para o bem quanto para o mal – percam a razão desde sabe-se lá quando.

Agora reflitamos: não foi a defesa de algo maior (e, neste caso, etéreo) que levou milhares de soldados às cruzadas e ao consequente massacre de outros milhares de pessoas? Não foi a defesa exacerbada de um bem maior e comum – o seu país – que encaminhou os alemães ao nazismo? Eichmann[12] não era, afinal, um indivíduo normal (ainda que com desejos recalcados, acrescentaria Freud), e até medíocre, que apenas cumpria ordens?

Bom ressaltar que esta exposição não intenciona o conformismo. Muito pelo contrário. Não devemos nunca virar o rosto frente a injustiças sociais. Também não quero dizer que a esquerda, ou qualquer outra corrente política que o queira, não deva tomar para si pautas não seletivas de direitos humanos. Para não restar dúvidas: nada do exposto até aqui inviabiliza o fundamento da crítica nem a manifestação de debates acerca dos direitos civis das minorias. O meu propósito é apenas de indicar que debates, críticas, discordâncias, resistências e pleitos não devem acarretar, necessariamente, na colocação de uns indivíduos contra outros (numa espécie de arena romana); nem na demonização do oponente; nem em conferir automaticamente ao discordante de qualquer narrativa hegemônica o título de inimigo das minorias, ou das maiorias, ou de quem quer que seja. De novo, a crítica desta autora não está no conteúdo, está na forma com que tudo é feito. O problema da polarização não é a divergência de ideias. O problema da polarização são os instrumentos (máscaras demonizadoras) utilizados para incrementá-la e separar definitivamente os personagens.

Conservadores, liberais, progressistas. Quaisquer personificadores do contraditório são essenciais para o funcionamento de uma sociedade democrática. Qualquer hegemonia supressora da voz e do pensamento do outro caminha pela via totalitária. Embora o diálogo com o crítico não seja o movimento mais fácil de todos, ele é preciso.  Em 2018, a expressão “eu não converso com fascistas – ou com corruptos” foi recorrente no que deveria ter sido um debate público. Foi com esse tipo de afirmação que as bolhas se consolidaram.

No livro “A História em Discursos”, o historiador brasileiro Marco Antonio Villa transcreve o pronunciamento de Nikita Kruschev, então secretário geral do PCUS (Partido Comunista da União Soviética), na sessão de encerramento do vigésimo congresso do Partido. Em um trecho do discurso, Kruschev atribui a Stálin a criação do conceito “inimigo do povo” e demonstra o desastre resultante disso:

“Tal expressão tornou automaticamente desnecessário que se comprovassem os erros ideológicos dos homens expressos numa controvérsia; tal expressão tornou possível o uso dos mais cruéis métodos de repressão, violando-se assim todas as normas da legalidade revolucionária sempre que alguém estivesse em desacordo com Stalin, sempre que se suspeitasse em alguém uma intenção hostil ou simplesmente porque alguém tinha má reputação. Por fim, esse conceito de ‘inimigo do povo’ eliminou todas as possibilidades de que se desenvolvessem lutas ideológicas ou de que alguém pudesse dar a conhecer seus pontos de vista a respeito de qualquer problema, ainda que fossem de caráter meramente prático.” (KRUSCHEV, 1956).

 De nossa parte, lamentamos profundamente não usar o exemplo stalinista apenas como transcrição histórica. Na retórica brasileira atual, também encontramos marcações de “inimigos do povo”.

São Paulo, 21 de outubro de 2018. “Perderam ontem, perderam em 2016 e vão perder a semana que vem de novo. Só que a faxina agora será muito mais ampla. Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria”, diz Jair Messias Bolsonaro (PSL) a uma efusiva e convertida multidão concentrada na Av. Paulista, se referindo ao “inimigo do povo de bem”, o PT e seus militantes.

São Paulo, 22 de outubro de 2018. “Ele é um anti-humano”, responde Fernando Haddad, petista e oponente de Bolsonaro no segundo turno das eleições, durante ato realizado no teatro da PUC-SP. “Ele é um anti-ser humano. É tudo o que precisa ser varrido da face da terra. E nós vamos varrer no dia 28 de outubro sem dó nem piedade”.

Um dos perigos do banimento do outro é que o banido pode tentar usar da mesma engenharia para reverter sua situação. E “olho por olho só deixa o mundo cada vez mais cego”[13].

Na próxima semana, falaremos do Episódio “Odiados pela Nação” e o comportamento das massas. Nos vemos lá?

 

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Rodapé:

[1] Arquétipo com função básica de adaptar o indivíduo ao mundo exterior.
[2] LEMOS, 2018.
[3] TRIGO, 2018.
[4] Étienne de La Boétie (1530-1563) escreveu “O Discurso sobre a Servidão Voluntária”, ensaio em que aborda como os homens caem em tirania e como resistir à opressão sem recorrer à violência.
[5] Atualmente, existem controvérsias com relação à representatividade do PT junto à esquerda. Para alguns cientistas sociais, a gestão do Partido dos Trabalhadores esteve mais aliada ao liberalismo econômico do que ao progressismo. Apesar disso, acredito que não possamos desconectar de vez este Partido das esquerdas, nem colocá-lo na categoria de centro-direita. Reconhece-se, porém, que nunca é muito fácil limitar uma gestão política.
[6] De acordo com o livro “As Armas da Crítica”, organizado por Emir Sader e Ivana Jinkings. Boitempo: 2012.
[7] Período estimado. Apesar de Gramsci ter sido preso pelo fascismo italiano em 1926, só começa a escrever os Cadernos do Cárcere a partir de 1929. Em 1933, ele já tem a saúde bastante deteriorada e dá uma pausa na escrita. Em 1937, morre Antonio Gramsci, de acordo com a cronologia publicada no livro “Vida e Pensamento de Antonio Gramsci”, escrito pelo historiador, filósofo e político italiano Giuseppe Vacca.
[8] CASTELLS, 2017. Redes de Indignação e Esperança, p. 20-21.
[9] TRIGO, 2018.
[10] TRIGO, p. 32, 2018.
[11] Quando as atitudes do indivíduo não condizem com suas crenças e valores internos.
[12] Adolf Eichmann era, de acordo com a filósofa e teórica política Hannah Arendt, um funcionário medíocre e pai de família que tentava apenas cumprir a meta a ele imposta: executar milhões de judeus.
[13] Frase atribuída a Mahatma Gandhi (1869-1948). Líder pacifista indiano e um dos personagens responsáveis pela independência da Índia, Gandhi teria desenvolvido o movimento de resistência não violenta, conhecido como Satyagraha.

Adna Maria é pernambucana, bibliófila e aspirante a escritora. Tem formação em Jornalismo e Geografia.