QUEDA LIVRE | E o Político Influencer – Eleições Presidenciais de 2018

Créditos: Print de Tela Netflix

Correr conferindo o celular. Em tempos de redes sociais, quem nunca?

As imagens rodam na sua timeline: exposição de exercícios realizados, brownies recém comprados, estripulias infantis. Clique no like para ajudar no sucesso dos empreendimentos (quaisquer que sejam eles).

E o engano de quem pensa que tais curtidas são aleatórias: para merecê-las é preciso que se exponha o relacionamento perfeito, as cores perfeitas, o sorriso perfeito, a mordida perfeita, as fotografias perfeitas. De preferência, tudo clean. Embaixo das camadas necessárias para o sustento de uma rede social de sucesso, a vida pode estar complicada, o café pode estar desagradável, o cookie pode estar impalatável. Nada disso interessa. O importante é que o público se agrade da ilusão transmitida.

O efeito é de cascata. Com um bom percentual de avaliações na rede, você pode ser considerado um bom influencer; sendo um bom influencer, você consegue ter uma boa rede de amizades, é convidado para as melhores baladas e alcança consideráveis descontos no mercado. É dessa forma que, dia após dia, você se esforça mais para mostrar a plenitude do seu mundo. E é essa vida plena que atrairá as métricas necessárias à sua inclusão no fluxo. Neste caso, os esforços pelas boas competências estão diretamente ligados ao ensaio da gentileza, à inclusão em um mundo politicamente correto, à aproximação de uma malha de pessoas bem avaliadas e à consequente fuga dos indivíduos mal qualificados. Para tanto, são criadas as técnicas do bem proceder, apreendidas através de consultores de rede (os ditos coaches).

A descrição acima faz referência ao primeiro episódio da terceira temporada de Black Mirror. Há que se admitir, no entanto, que da forma como está posto fica difícil para um desavisado descobrir se estamos nos remetendo à ficção ou à realidade atual. Uma sociedade baseada em sistema de pontuação, no fim das contas, não é algo muito distante do que vivemos agora.

Para demonstrar a supra exposição com eventos reais, devo mencionar uma interação entre mim e um simpático motorista de Uber. Lembro de ter recebido do rapaz, assim que entrei no banco traseiro do seu automóvel, a informação de que minha pontuação alcançava a nota máxima do sistema uberiano. Naquele momento, a empolgação do moço me fez desconfiar levemente de duas coisas: primeiro, que a forma efusiva com que me tratava teria algo a ver com minha pontuação no aplicativo; segundo, que os progressivos descontos a mim concedidos nas últimas corridas se remetiam também à tal classificação.

Mas esse é apenas um exemplo pessoal, uma pontinha do iceberg dataísta. Para demonstrar de fato como a sociedade está mudando a partir das qualificações virtuais, lancemos nosso olhar para o sistema de pontuação social implantado na China. De acordo com a Época Negócios, em matéria publicada no início do ano passado, uma cidade chinesa chamada Suqian lançou um sistema de avaliação responsável por premiar ou punir cidadãos com base em seu comportamento:

As autoridades anunciaram um sistema de avaliação de “confiança” com todos os seus cidadãos adultos. Cada um começa com uma base de mil pontos, número que pode aumentar ou diminuir. Se você realiza serviços voluntários, por exemplo, a pontuação sobe. Se quebra alguma regra ou comete um crime, sua nota decresce. Chamado de “Pontos Xichu”, o sistema calcula mensalmente a pontuação de cada um, dividindo a população em oito categorias, que vão de AAA (cidadão modelo) até a D (não confiável). […] Com o número da identidade, o cidadão confere se a sua pontuação está vermelha ou verde. Se estiver verde, pode receber pequenos prêmios como um desconto mensal no transporte público ou internação em um hospital privado por um valor abaixo do cobrado normalmente. (ÉPOCA NEGÓCIOS, 2019)

De acordo com Yuval Noah Harari (2016), em uma sociedade dataísta[1] – que não é liberal, não é humanista, nem é necessariamente anti-humanista – em que estar desconectado aparentemente leva a perder o fluxo da vida, “a conexão com o sistema se torna a fonte de todo significado”. Nesse tipo de sistema social, o indivíduo se interessaria imensamente por fundir-se ao fluxo de dados, visto que, sendo parte desse fluxo, ele se consideraria parte de algo muito maior que ele mesmo.

“Passamos tanto tempo envolvidos com coisas banais nesta vida, que acabamos não valorizando o que é real”, diz Lacie Pound, a personagem do episódio Queda Livre, enquanto tenta imprimir emoção à própria expressão. Nesse momento, Pound ensaia o discurso que fará no casamento de sua muito bem avaliada “amiga” Naomi. Pound precisa fazer um belo pronunciamento sobre a noiva para estar junto da sua rede de contato; a noiva precisa do discurso para continuar sendo bem pontuada; e as percepções são devidamente alteradas pelas métricas da virtualidade.

O problema de uma sociedade baseada em sistema de pontuação social são as arbitrariedades ocorridas em seu decurso. Tenhamos como exemplo o caso da própria Lacie Pound. Enquanto tenta obstinadamente chegar à celebração matrimonial da amiga de infância, Pound vê a própria avaliação social deteriorada à medida que, no percurso até o casamento, briga com o irmão, perde um táxi, esbarra em uma mulher qualquer, é efusiva demais em um segundo transporte, afronta a atendente do aeroporto, obtém baixa considerável de nota por parte de um representante da Lei e da Ordem e é mal avaliada por um funcionário de posto de gasolina. E este último usa como justificativa para a baixa avaliação o fato de não ter considerado a interação entre os dois algo lá muito marcante.

Acreditando que terá os pontos perdidos de volta com a manifestação de carinho que fará para a “amiga”, a protagonista finalmente consegue – contra a própria vontade – uma carona com uma caminhoneira avaliada em 1,4 pontos. É claro que estar próxima de alguém com pontuação tão baixa a preocupa. E uma inquietação tão transparente não deixaria de ser percebida pela senhora. “Está conferindo se sou perigosa nas minhas avaliações? Uma pessoa com nota 1,4 só pode ser uma maníaca antissocial, não é?”, pergunta a loser a uma Lacie aflita, antes de contar a história de como mandou tudo às favas com a morte do marido e de como foi desprezada a partir do momento em que deixou de se preocupar com o choque que causaria nas pessoas, ao assumir a própria personalidade. “Passaram a me tratar como se eu tivesse cagado na mesa de café da manhã deles”, ironiza.

Para não incorrermos mais em chatices descritivas, vamos finalizar a parte da ficção dizendo que ela termina com Lacie Pound (agora com 1,8 pontos sociais) na prisão, trocando agressões com outro preso.

E a realidade começa com a ascensão de um deputado, inicialmente participante das camadas politicamente inferiores – portanto, com capital social irrelevante –, representadas pelo conservadorismo (no caso do presidente e dos seus seguidores mais apaixonados, reacionarismo[2]) e pelo politicamente incorreto, à Presidência da República.

Enquanto a narrativa de Queda Livre apresenta uma descida progressiva às camadas sociais mais baixas, à medida que a personagem perde capital social em uma sociedade gerida pela metrificação das redes; no Brasil, em uma espécie de engenharia reversa, acompanhamos a subida do tal deputado ao cargo mais elevado do Executivo Nacional. Através da força das redes sociais, responsáveis tanto por embargar quanto por fazer emergir o tal capital social de pessoas físicas e/ou jurídicas, o citado parlamentar acabou por se estabelecer como representante de um sistema antiestablishment.

Reitere-se que o discurso politicamente incorreto – que hoje em dia tem como embaixador maior o atual presidente da República do Brasil – é rechaçado pela elite intelectual e pelos movimentos sociais despontados no país desde meados dos anos 60, por ser considerado uma forma de opressão de gênero, classe, raça e cultura[3].

Há que se reconhecer, inclusive, que depois da ditadura militar e principalmente nos governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff (ambos petistas), com os avanços sociais e a disseminação da social-democracia, o termo “conservador de direita” passou a ser sinônimo de “fascista” em âmbito nacional[4]. Tanto, que em dado momento da nossa história atual, direitistas e liberais brasileiros, meio atulhados no armário da vergonha pública, começaram a alegar certa supressão de sua liberdade de expressão bem como o patrulhamento ideológico advindo da classe artística, dos intelectuais e dos jornalistas de esquerda.

Com o aparecimento das redes sociais e com os escândalos de corrupção protagonizados pela esquerda, no entanto, essas mesmas forças políticas antagônicas ao progressismo tiveram sua chance de “sair do armário” e voltar a participar do debate público, como descreve um artigo da Revista Piauí, intitulado “A Revolta Conservadora”, publicado em dezembro de 2018 e escrito pelo professor de filosofia da Unicamp, Marcos Nobre:

Foi uma revolta de quem frequenta a igreja contra seus pastores, de militares de patentes mais baixas contra as altas patentes, do baixo clero contra o alto clero do Congresso Nacional, de pequenos comerciantes, produtores rurais e industriais contra suas entidades representativas e contra os “campeões nacionais”, da base de primeira instância do Judiciário contra suas instâncias superiores, do baixo clero do mercado financeiro contra os porta-vozes dos bancões. E por aí vai. A revolta começou por ameaçar lideranças que pretendiam falar por seus liderados no momento de negociar seus votos e seu apoio com as cúpulas do sistema político. (REVISTA PIAUÍ, 2018).

Foi seguindo todo este fluxo que Jair Bolsonaro, o loser brasileiro, se projetou nacionalmente. Usando a lógica do algoritmo e a funcionalidade disruptiva das redes sociais, o então deputado conjugou-se inclusive com youtubers emergentes de direita, acumuladores cada vez mais evidentes de pontuação (curtidas e consequentes seguidores) na internet.

Segue o resultado: em 3 de setembro de 2018, em sua coluna no site da Revista Época, o jornalista Murilo Ramos publicou que o número dos seguidores do candidato do PSL à presidência havia crescido 41% nas redes sociais desde janeiro do mesmo ano, com total de “9,5 milhões no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube. […] Seguido por Lula (4,6 milhões), Marina Silva (4,2 milhões) e João Amoêdo (2,5 milhões).”[5]

Participação especial em canais de direita, lives realizadas na plataforma do YouTube e mitagens no Twitter e Facebook contribuíram para uma rede cada vez mais cumulativa de seguidores de Jair Bolsonaro.

Dessa vez, as métricas do mundo virtual desembocaram no Palácio do Planalto brasileiro.

E agora o Brasil tem um influencer no poder.

Na próxima semana, falaremos do Episódio “Engenharia Reversa”, a guerra de narrativas e o assassinato de reputações. Nos vemos lá?

POR ENQUANTO, VEJA OUTROS TEXTOS DESTA SÉRIE:

 

BLACK MIRROR | E as Eleições Presidenciais de 2018 – SOBRE VIDA E ARTE.

BLACK MIRROR | E as Eleições Presidenciais de 2018 – TECNOLOGIA E DEMOCRACIA

HINO NACIONAL | E o Papel da Imprensa nas Eleições Presidenciais de 2018

MOMENTO WALDO | E o Espetáculo Político nas Eleições Presidenciais de 2018

QUEDA LIVRE | E o Político Influencer – Eleições Presidenciais de 2018

ENGENHARIA REVERSA | A guerra de narrativas e o assassinato de reputações

ODIADOS PELA NAÇÃO | E o Comportamento das Massas

 Rodapé

[1] Termo difundido pelo próprio Harari, que é professor israelense de História e autor do livro “Homo Deus: uma breve história do amanhã”, o dataísmo refere-se a um universo onde qualquer fenômeno é quantificado pela lógica do processamento de dados. Para o historiador, o dataísmo poder ser considerado como uma nova religião.
[2] Sugiro ao leitor pesquisar a diferença entre conservadorismo e reacionarismo, visto que os próprios conservadores – a exemplo dos progressistas que alegam a deturpação do marxismo pelos que tentaram implementá-lo – buscam colocar um limite entre um pensamento e outro. Neste nosso debate, não nos aprofundaremos nos respectivos significados.
[3] RAMOS, 2017. O politicamente correto e a topologia da exclusão.
[4] Esta questão será mais bem detalhada no item 3.4.
[5] Pesquisa realizada pelo Instituto MAPA e por Mr. Predictions, do grupo Nexxera.

Adna Maria é pernambucana, bibliófila e aspirante a escritora. Tem formação em Jornalismo e Geografia.