SOLTEIRO QUE FALA | Né, meu filho?

Créditos: Reprodução | Site Ideia de Marketing

Desbloqueia a tela do celular, abre o aplicativo, curte algumas fotos e não dá match. Normal. Essa é a vida de tantos solteiros que usam o date virtual.

Dia dos namorados, flores, chocolates, ursos de pelúcia. Decorações vermelhas acompanhadas de declarações de amor. Passado o momento, aquele monte de propaganda vai por água abaixo. Já deu, né?

Tudo gira em torno de um clichê tão estridente há tantos anos que me pergunto: existe realmente tanta gente apaixonada assim? Tudo é mesmo tão perfeito? Claro que não. As coisas têm preço, mas nem sempre têm valor. Parece videoaula de marketing, mas é só a vida mesmo.

A depender de algumas perspectivas, a condição de solteiro pode torná-lo “diferente”. Ir sozinho ao cinema, voltar da balada com o copo na mão, maratonar aquela série e comentar com os amigos (geralmente, sem respostas), têm suas (des)vantagens. É uma autodeclaração de amor sem o espelho de Narciso. Só faz sentido para quem se conhece – e muito bem!

Das decisões que já tomei na vida; provavelmente, a melhor delas foi viajar sozinho. Já pararam para pensar que nossa postura muda quando estamos apenas em nossa companhia? Passei por isso quando fui à Avenida Paulista pela primeira vez. Na era A.C (Antes do Coronavírus), aquela gente toda na rua passeando com cachorro, tocando violão, fazendo ginástica ou cantando era muito diferente do que eu tinha imaginado. A seriedade de prédios, portões e asfalto me parecia leve, solta e sem compromisso.

Meus 30 anos foram tão transformadores que é difícil encontrar outro divisor de águas. Um domingo ensolarado e uma bebida não mão me fizeram pensar na vida até ali. Eu tinha um emprego estável, morava com meus pais, fazia bicos como revisor de texto (trabalho que amo e faço até hoje)…

Percursos transformam, mudam e (assim espero!) melhoram. Eu estava atravessando semáforos e São Paulo se abria para mim. Cada passada era um golpe de vista na imensidão de cabeças e pernas aflitas pelo alcance próximo. Uma reta de gente frenética com sons, cheiros, gostos e individualidades. O que é a liberdade senão um senso de autodisciplina? Renato Russo responderia essa na boa.

Foi ali que realmente viajei, só que para dentro de mim. E digo mais: sozinho. O deslocamento de tempo e espaço trouxe um amadurecimento no olhar. Se o clichê diz que viajar é trocar a roupa da alma, o assento para uma pessoa só é um choque. É claro que a companhia de alguém seria muito bem-vinda naquele e em outros momentos da vida, mas percebi que não era necessária. Nem cobranças, padrões, piadinhas, olhares e tantas outras situações em que nós, solteiros, nos colocamos. Porque não há caminho certo. Cada um descobre os atalhos, pontes e esconderijos para chegar aonde quer.

Se estar acompanhado neste dia dos namorados significa se encaixar na forma da felicidade enlatada que o mercado produz e nos vende, sou obrigado a dizer: É SOLTEIRO QUE FALA, SIM!

Ivan Reis é graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Linguística Aplicada. Atua como revisor e preparador de texto, mas gosta mesmo é de ler, escrever e tomar sorvete nas horas vagas. E-mail: ivan.reis@hotmail.com