MOMENTO WALDO | E o Espetáculo Político nas Eleições Presidenciais de 2018

Créditos: Print de Tela Netflix

“Eu esperava que ele me comesse”, responde o urso de desenho animado ao apresentador do Tonight for One Week Only, programa fictício que o lançará na rede. O cartum está se referindo ao encontro que reuniu ele próprio e o ex-ministro da Cultura, Liam Monroe, numa caverna rosa. Na entrevista, direcionada às crianças, o urso azul chamado Waldo faz perguntas desconcertantes e provocativas ao representante do Partido Conservador.

Monroe se sente incomodado com o atrevimento do ursinho e resolve acioná-lo na justiça. Consegue, com esta atitude, angariar mais publicidade para o personagem.  A confusão com o conservador traz tanta audiência para o cartum que, logo, a equipe detentora dos direitos de sua imagem se reúne para traçar estratégias de projeção para ele.

“Por que não colocamos o Waldo para disputar a eleição? Ninguém vai realmente votar nele”, diz um louco qualquer na reunião. Tudo o que eles querem, afinal, é publicidade, e esta ideia só não parece mais estapafúrdia do que colocar na disputa eleitoral por uma cadeira no parlamento (para representar um lugar chamado Stentonford) uma [ex] serial killer – do Partido Trabalhista – que tem intenção única de usar a propaganda em torno de seu nome para projetar-se na televisão.

“O colorido Waldo lançou sua própria campanha em um estilo chamativo que agrada às multidões”, anuncia a imprensa. Pois é, protestos por parte de Jamie Salter – dublador do desenho animado, humorista fracassado que odeia política e certamente não gostaria de participar dela – à parte, a produtora resolveu que o urso se lançaria mesmo à candidatura. E sua estratégia de marketing político seria apenas a de perseguir e ridicularizar o conservador Monroe.

Chega o dia do primeiro debate televisivo entre os opositores políticos e todos estão a postos, tendo uma animada plateia como expectante. Para não fugir à regra de devassa que um candidato faz na vida do outro, mister Monroe expõe o passado de Jamie e mostra que não está aberto à derrota. Suas palavras são assertivas: “É fácil o que ele faz. Ele debocha. E quando não consegue pensar em uma piada autêntica, o que é frequente, ele xinga.”

A plateia silencia.

O constrangimento é evidente.

Convidado a se pronunciar sobre o assunto, Waldo – ou Jamie – manda Monroe ir “se fu(piii)”. A plateia gargalha. Waldo humilha Monroe. A plateia aplaude. Waldo acusa Monroe de conivência com um crime de pedofilia envolvendo outro político. A plateia se anima. E para entrar na categoria de fenômeno político, Waldo nem precisa de um par de óculos escuros e uma música que o acompanhe.

Irritado por ter sido “desmascarado”, Jamie Salter – Waldo para o público – desmoraliza todos os candidatos participantes do debate. É o suficiente para ele viralizar. Em três dias, o vídeo do embate tem mais de um milhão de visualizações no YouTube. Um grupo no Facebook sugere que o desenho animado funde um Partido Nacional. O urso passa a figurar em terceiro lugar nas pesquisas eleitorais. Forças poderosas o convidam a integrar um esquema de trucidamento de reputações em nível hard. E tudo o que ele precisa fazer para conseguir tais façanhas é afrontar menos de meia dúzia de políticos e se mostrar contra o status quo, vejam vocês.

Ao tentar contestar os acontecimentos correntes, o dublador ouve de seu produtor que o mundo está desgastado e ele precisa fazer algo a respeito. “O Waldo chamou a atenção dos jovens. Os jovens não ligam para nada além de tênis e filmes piratas. Eles votariam no Waldo”, são as palavras de Jack Napier para Jamie. O dublador, no entanto, insiste em sua tese e contra-argumenta que o desenho animado não defende nada. “O importante é não fingir”, rebate Napier. O cartum não precisa fazer grandes coisas. Basta ser autêntico.

E foi assim que Waldo, o alívio cômico, deu vida a Waldo, o mascote oficial para os votos de protesto.

“O marketing político é levado ao extremo, colocando um personagem ficcional como candidato a um cargo público, tendo como plataforma de ação o escracho, a trollagem, a política de bravata e não profissional. Ele não quer fazer o que é próprio do debate político, circular a palavra. O que ele quer é aniquilar a palavra, o debate, substituindo-a pelo entretenimento e o espetáculo.” (LEMOS, 2018, p.67).

Waldo agora é outsider. Ele vai contra toda a corja política tradicional. Optando por Waldo, os eleitores se mostram automaticamente contra os partidos políticos convencionais.

Semelhante forma de protesto esteve em voga nas últimas eleições do Brasil e de outros países do mundo. Na vida real, candidatos também foram escolhidos para representar uma “nova política” e pontos também foram somados em oposição a partidos tradicionais, considerados corruptos. Fazendo um paralelo entre realidade e ficção, André Lemos escreveu:

“Algo de muito atual aparece nesse episódio, principalmente no momento de crise política pelo qual passa o Brasil, de desencantamento com a política, de descrença nos políticos profissionais e de aderência a pensamentos simplificadores e salvacionistas, ou simplesmente de protesto.” (LEMOS, 2018, p.65).

Parafraseando André Lemos, digo que algo de muito real e atual pode ser notado no Momento Waldo.

Vejamos.

“Esse dinheiro do auxílio-moradia, eu usava para comer gente”, respondeu Jair Messias Bolsonaro, o outsider brasileiro, à repórter da Folha de São Paulo, na frente de sua casa amarela, em Angra dos Reis, no dia 11 de janeiro de 2018. Naquele momento, a Folha questionava ao então deputado sobre qual destino ele teria dado ao dinheiro recebido como ajuda de custo em moradia, considerando que seu apartamento em Brasília poderia fazê-lo prescindir de tal assistência[1].

A resposta do deputado virou meme[2] nas redes sociais. Afinal, “ele debocha. E quando não consegue pensar em uma piada autêntica, o que é frequente, ele xinga.” E a plateia se divide entre o constrangimento e o aplauso.

Em novembro de 2017, a BBC News Brasil publicou uma matéria cuja manchete questionava a idade dos eleitores de Jair Bolsonaro (então no PSC). Naquela época, de acordo com o instituto Datafolha, o deputado figurava em segundo lugar nas pesquisas eleitorais para presidente da República, com 16% das intenções de voto. Em terceiro lugar estava Marina Silva (Rede), com 14%. Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que reunia 36% das intenções, figurava em primeiro lugar. Escreveu a BBC em seu site:

“Neste cenário, um detalhe tem chamado a atenção de analistas e cientistas sociais: 60% dos eleitores de Bolsonaro têm entre 16 e 34 anos. Desses, 30% têm menos de 24 anos. O percentual é significativo quando comparado com a atração ao público jovem de seus principais concorrentes: 45% dos que disseram votar em Lula têm menos de 34 anos. Entre os que preferiram Marina, 49% estão nessa faixa etária.” (BBC NEWS, 2017).[3]

Na tentativa de responder à própria pergunta, a BBC Brasil foi em busca de pesquisadores e eleitores bolsonaristas e acabou por entender que o sucesso de Jair Messias junto ao público juvenil se devia, em grande parte, à sua participação na internet. “Bolsonaro sabe muito bem utilizar as redes sociais, conhece a linguagem que viraliza, usa frases curtas de efeito apelativo, cria polêmica, fala o que pensa. Ele é um performer[4], explicou a doutora em ciências políticas Esther Solano.

Os memes não ficariam fora do processo. De acordo com a BBC, eram eles, afinal, que diligentemente ajudavam a atrair jovens para a causa do candidato:

“O estudante de administração Gabriel Araújo conheceu o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC) em um meme no Facebook. Era final de 2013, e o jovem da Baixada Fluminense, hoje com 22 anos, estava desencantado com a política e com o país. Não acreditava em mais ninguém. Foi depois do meme que nasceu sua admiração ao hoje pré-candidato à Presidência da República.” (BBC NEWS, 2017).

Com ou sem memes, a participação dos jovens parece ter grande relevância em campanhas políticas. No longínquo 64 a.C., o general e político romano Quintus Tullius Cicero já alertava a seu irmão mais velho, Marcus Cicero, candidato a cônsul de Roma, sobre a importância do engajamento juvenil nas eleições. Naquele tempo, Quintus aconselhava Marcus a se acercar de jovens e adolescentes; admiravelmente zelosos quando da votação. No entender do irmão mais novo, a aproximação com os mais jovens seria uma tarefa facilmente realizável, justamente por eles serem… jovens.

Não terá sido, então, mera coincidência que o detentor da imagem de Waldo tenha mencionado a mocidade junto a Jamie Salter, já que até Cicero demonstrou não poder abrir mão da juventude, por ser ela convincentemente empenhada, apaixonada e lúdica quando envolvida em algum projeto.

Quem assistiu Momento Waldo e acompanhou de perto as eleições brasileiras de 2018 pode ter a sensação de que o enredo é o mesmo, só mudam os personagens.

Assim como no debate ilustrado na série, no último pleito nacional vimos de tudo, menos argumentos propositivos para o país. É verdade, no entanto, que a falta de propostas cabíveis para a gestão do Brasil não é recente. Em 2014, a contenda entre os candidatos à Presidência da República já andava mais em níveis acusatórios do que construtivos. Difícil não lembrar a troca de farpas entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) naquele ano. Marina Silva (Rede), que também disputou o executivo nesse ano, diz ter sido ela mesma vítima de um “desmonte machista” originário dos marqueteiros da campanha de Dilma Roussef[5].

A diferença de 2014 para 2018 esteve no acirramento da torcida (plateia) organizada em torno das ideologias, configuração exponencialmente inflamada nas redes sociais. No Brasil de 2018, a plateia estava a postos para aplaudir e defender seu escolhido a qualquer custo. Precisamente no segundo turno, com o candidato da direita representando a ‘nova administração’ enquanto o candidato da esquerda representava a ‘velha corrupção’, bolsonaristas e petistas (ou outros eleitores que se alinhassem, por questão de proximidade ideológica, a uma das categorias políticas) transformaram-se, virtualmente, na turma que “lacrava” versus a turma que “mitava”.

As boas propostas não estavam interessando nem aos eleitores. Candidatos com alguma proposição a ofertar não participavam do show business corrente, sendo logo relegados às porcentagens mais baixas da apuração eleitoral. Neste ponto, precisamos citar novamente André Lemos quando ele resenha que no axioma eleitoral “não há vontade de enfrentar os problemas e parte-se para crenças em pessoas em detrimento dos argumentos de fato”.

Fato é que no fim – e ao contrário da série, cuja vitória foi dada ao Liam Monroe – amplificado pelas redes sociais, venceu “o mito”, o Waldo brasileiro. Aquele cuja falta de competência foi disfarçada – se é que houve o mínimo de esforço no sentido de disfarçá-la – pelas ironias e deboches; características que ajudaram a atrair, na grande final, o total de 47,04 milhões de eleitores.

A veneração da plateia bolsonarista mais empenhada podia ser fruto tanto do descrédito nos partidos tradicionais quanto da esperança por parte do eleitor de que uma “pessoa nova” – não tão nova assim, considerados os seus cerca de trinta anos de atuação no Congresso – gerasse fatos novos. A essa torcida juntou-se a parte do eleitorado que, dada a simplicidade do populista, passou a encará-lo como seu igual e, portanto, apegou-se a ele de forma mais sentimental.

Sobre a atração dos vários tipos de eleitores, Cicero também aconselhava seu irmão:

“Três coisas são tomadas como garantia na votação: favores, esperança e apego pessoal. Eleitores passam para seu lado com pequenos favores, visto que se julgam protegidos em sua ocupação […]. Para os eleitores a quem deu esperanças, um grupo muito mais zeloso e aplicado, faça com que pensem no seu propósito. Você estará lá preparado para ajudá-los no futuro […]. O terceiro grupo eleitoral tem boa vontade e lealdade por causa do apego pessoal. Eles creem que se ajustam aos seus discursos pelas mesmas razões. Encoraje-os nas afinidades de cada coisa com relação aos seus sentimentos e interesses mútuos.” (CICERO, 64 a.C, p. 49).

Como podemos notar, até o marketing da “nova política” é mais velho do que o próprio Cristo. O ato de cair sempre na mesma “lábia” talvez seja inerente às nossas capacidades (humanas) mais ingênuas ou mais otimistas. Ou talvez seja só pragmatismo mesmo, visto que podemos sempre nos submeter ao pensamento corrente de que se é preciso votar em alguém, que seja na pessoa com quem a maioria de nós se identifica.

Deixando as ponderações de lado, saltemos para junho de 2020. Com um ano e seis meses de mandato do novo governo; com suspeitas de envolvimento de ex-assessor e milicianos; com funcionários fantasmas em folha de pagamento de Assembleia Legislativa; com escândalo de rachadinha (devolução de parte do salário em gabinetes); com movimentações financeiras atípicas de filhos parlamentares; com laranjada; com acusação de esquemas em grupos de fake news e de robôs responsáveis por assassinar a reputação dos inimigos; com suspeição de intervenção na Polícia Federal para fins próprios; com mostras de acordos com o Grande Centrão (membros suspeitos da velha política); no meio de uma pandemia não valorizada (são 38.406 mortes até hoje) e com práticas de proteção e favorecimento (de pai para filhos) envolvendo a família Bolsonaro, talvez seja hora de repensar o conceito de novidade política na Pátria Amada Brasil.

A dúvida de agora é se as práticas do governo brasileiro atual se enquadrariam na categoria de novas com cara de velhas ou de velhas com cara de novas.

Na próxima semana, falaremos do Episódio Queda Livre e o político influencer. Nos vemos lá?

POR ENQUANTO, VEJA OUTROS TEXTOS DESTA SÉRIE:

 

POR ENQUANTO, VEJA OUTROS TEXTOS DESTA SÉRIE:

BLACK MIRROR | E as Eleições Presidenciais de 2018 – SOBRE VIDA E ARTE.

BLACK MIRROR | E as Eleições Presidenciais de 2018 – TECNOLOGIA E DEMOCRACIA

HINO NACIONAL | E o Papel da Imprensa nas Eleições Presidenciais de 2018

MOMENTO WALDO | E o Espetáculo Político nas Eleições Presidenciais de 2018

QUEDA LIVRE | E o Político Influencer – Eleições Presidenciais de 2018

ENGENHARIA REVERSA | A guerra de narrativas e o assassinato de reputações

ODIADOS PELA NAÇÃO | E o Comportamento das Massas

Rodapé:

[1]O dinheiro do auxílio-moradia é pago ao parlamentar que não ocupa o apartamento funcional, de acordo com o site da Câmara dos Deputados. O valor atual – pesquisa realizada em 26 de setembro de 2019 – é de R$ 4.253,00 (quatro mil, duzentos e cinqüenta e três reais), conforme estabelecido no Ato da Mesa 3/2015. De acordo com alguns analistas, era imoral – não ilegal – o fato de Bolsonaro receber tal assistência.
[2] Sobre o conceito e surgimento do “meme”, sugiro ao leitor que veja a entrevista do jornalista investigativo Claudio Tognolli no canal da também jornalista Leda Nagle, na Plataforma do YouTube. Título do vídeo: Momento Político Bipolar. Publicado em 11 de novembro de 2019.
[3] A BBC não divulgou os números reais da pesquisa.
[4] Entrevistada pelo BBC News Brasil.
[5] Marina Silva alega ter sido vítima da “campanha fraudulenta” de Dilma Rousseff em entrevista concedida ao Programa Morning Show, da Rádio Jovem Pan, em 27 de novembro de 2019.

 

Adna Maria é pernambucana, bibliófila e aspirante a escritora. Tem formação em Jornalismo e Geografia.