UM VÍRUS | Chamado Amor

Créditos: Imagem por Pixabay

Minha quarentena tem sido uma fração de amor e de angústia. Desde que estou trancado no meu apartamento, há 20 dias, a saudade sopra no meu ouvido aquilo que mais quero: um beijo da minha Luísa.

Não entendo como um vazio pode ser preenchido apenas pela voz de alguém. O que mais nos aproxima das pessoas é o coração e não a distância, me diz este período de isolamento. Lembro da última vez que fomos ao cinema; algo tão natural, tão parte das nossas vidas… Miro o celular e fito nossa última foto.

Impossível não lembrar dos finais de semana. “Bom dia, amor”, eu escutava de uma voz rouca que me despertava de um sono pesado. Os sábados tinham uma sensação de liberdade, de tempo livre e de espaço na agenda. Os sapatos na sala e a bolsa na mesa eram suas formas de estar ali, naquele lugar.

“Oi, você tá aí?”, é o que eu ouço nas noites de agora. Depois das aulas da faculdade, olhos cansados estão dispostos a saber o que eu fiz durante o dia. A futura arquiteta gosta de ter o controle da obra.

Ela está do outro lado da cidade e eu, no meu apartamento.

Deus salve a internet!

Som e imagem nunca fizeram tanto sentido.

Sou uma pessoa que preza pelas relações humanas. Minha visão de futuro estava muito distante do que vivo agora; com este silêncio ruidoso de quatro paredes brancas  e na companhia ordeira dos livros.

O trabalho sempre foi uma válvula de escape. Revisar os textos dos outros – ou os sentimentos dos outros – me fazia ter uma experiência com os meus. O que está no papel nem sempre é realidade. Isso minha seção de romances já tinha dito.

As notícias sobre a pandemia rondam nossas conversas. De repente, a imagem trava e não consigo escutar o que diz. Ela sai do alcance da câmera. “Por quê?”, me preocupo; não entendo; me angustio. Nossa convivência tem tanta cumplicidade que às vezes beira o desvario. Um não sabe o que fazer sem o outro.

Finalmente o foco é ajustado e noto algo em sua mão. Uma pequena caixa branca é aberta; parece um porta-joias antigo. Dois segundos de mistério são suficientes para eu ver dois sapatinhos de lã nas pontas dos dedos. Duas lágrimas escorrem no meu rosto e não me contenho.

Tiro os fones de ouvido para ouvir um silêncio mais que significativo. É real. É a realização de um sonho.

Luísa está grávida. Eu vou ser pai.

Só que ela ainda está lá; do outro lado da cidade. E este espaço entre nós só evidencia minha dificuldade em lidar com o distanciamento.

O chaveiro de coração com as chaves de Luísa estão esquecidos na minha mesa de trabalho. Eu não tinha notado; um dicionário bloqueava a minha visão. Agora o vejo chaves e coração. Duas palavras que o tempo uniu. Permito-me considerar que um novo mundo se abre com essas chaves. E  no ritmo de um coração pequeno.

“Pode deixar aí. Agora você tem dois corações e um segredo”, ela diz antes de encerrar a videochamada.

Ivan Reis é graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Linguística Aplicada. Atua como revisor e preparador de texto, mas gosta mesmo é de ler, escrever e tomar sorvete nas horas vagas. E-mail: ivan.reis@hotmail.com