HINO NACIONAL | E o Papel da Imprensa nas Eleições Presidenciais de 2018

Créditos: Tela printada da Netflix.

A princesa está chorando.

Seu desespero é transmitido ao mesmo tempo pelo notebook e por uma tela de TV à equipe do primeiro ministro britânico Michael Callow, que, boquiaberto, assiste à cena. A sequência de imagens iniciais abarcando ambas as telas – notebook e TV – é preditiva do que pretende abordar o primeiro episódio da primeira temporada de Black Mirror: em plano primário, o papel controlador das mídias de massa (televisão, jornal impresso, televisivo e radiofônico); em plano secundário, a abordagem do poder de circulação da informação pelas mídias pós-massivas (digitais)[1].

“O que eles querem? Dinheiro? A libertação dos jihadistas? O fim da dívida do Terceiro Mundo? Salvar as malditas bibliotecas?”, pergunta um primeiro-ministro assustado aos seus assessores, depois de informado que a duquesa Susannah havia sido raptada, a despeito de todo o aparato de segurança que a acompanhava, enquanto voltava do casamento de uma amiga da faculdade. A exigência do sequestrador, no entanto, era “simples”: o ministro teria apenas que aparecer às quatro horas da tarde, ao vivo, em todas as emissoras britânicas de TV terrestres e via satélite para transar com um porco. Sem simulação.

O vídeo é interrompido antes de emitidas as especificações técnicas e o silêncio na sala é absoluto. O ministro acredita que alguém tenha lhe acordado para tentar uma espécie de piada sem graça.

Não é o caso.

O vídeo havia sido postado pelo autor do sequestro no Youtube e, nove minutos depois, quando a equipe de assessores o tirou do ar, ele já tinha sido baixado, duplicado e propagado na rede. Estimativa de visualização: cinquenta mil. Somente os noticiários tradicionais ainda não o tinham posto no ar, por estarem cumprindo uma determinação enviada pela equipe do parlamentar. A imagem, no entanto, já tinha se tornado trend[2] no Twitter.

Ouvida a explanação, o ministro finalmente tem coragem de perguntar qual é o procedimento para gerenciar esse tipo de crise. “Isso é tudo novo, primeiro-ministro. Não tem procedimento”, responde um dos assessores, consternado.

Nos bastidores da UKN (emissora de TV fictícia), repórteres discutem se devem ou não continuar atendendo a notificação recebida. Espectadores querem saber o motivo da não divulgação do sequestro. Os jornalistas entendem que ao mesmo tempo em que há a vida de uma mulher a ser respeitada, a notícia é importante demais para não ser compartilhada. No desenrolar do debate, um interlocutor afobado anuncia que outras emissoras já estão transmitindo o caso. A equipe deles está atrasada, precisa reverter a situação.

A população, por sua vez, está em dúvida. Será verdadeira ou falsa a notícia emitida em rede social? Provavelmente falsa, visto não ter sido transmitida pela televisão – todos especulam, até que a música característica de urgência é tocada na TV. Agora é para valer. O espetáculo está montado. Fomentados pela imprensa, responsável pela promoção dos debates, todos, de diferentes maneiras, têm uma opinião a dar sobre o caso. A imprensa alimenta o acontecido ao mesmo tempo em que é alimentada pela curiosidade do público.

No decorrer da espetacularização, observamos uma troca interessante de texto entre uma jornalista da UKN e um dos componentes da equipe do primeiro-ministro: informações dos procedimentos adotados para resolução do caso são trocadas por sexting[3] – mas este debate não é levantado, visto que o público não é exatamente conhecedor do que acontece nos bastidores de uma redação. Neste trecho do episódio, porém, há claramente uma crítica direcionada à relação mídia-poder. Sobre isso, o mestre em Política de Ciência e Tecnologia, André Lemos, ao analisar a série no livro “Isso (não) é muito Black Mirror”, diz:

“A promiscuidade entre mídia de massa e poder é explícita: relação íntima entre políticos e jornalistas, estatísticas de popularidade para indicar qual ação tomar, agendamento da discussão e o enquadramento fazendo que a opinião pública flutue.” (LEMOS, 2018).

O sequestrador descobre, por meio de uma divulgação irresponsável postada na internet – não sabemos quem postou, mas suspeitamos! – que a equipe do primeiro-ministro quer contratar um ator para contracenar com o porco. O criminoso, então, supostamente corta um dos dedos da princesa e manda para a UKN junto com um vídeo; este último imediatamente divulgado pelo veículo de imprensa.

A opinião pública, antes simpática ao ministro, muda de forma radical.

O debate recrudesce.

Enough! – é uma expressão inglesa que, traduzida para o português, recai em um enfático “já chega”. No contexto corrente, o termo determina que, dada a sua torpeza, as cenas seguintes não merecem menção. Além do mais, o exposto até este momento é suficiente para iniciarmos uma discussão acerca do poder de manipulação da imprensa sobre a opinião pública, bem como sua relação com o poder político. Não vamos, portanto, entabular aqui uma conversa sobre a “performance artística” que propunha o autor do sequestro; não vamos detalhar suas intenções de denunciar a “sociedade do espetáculo” e o controle dos meios de massa; e não vamos citar mais uma vez André Lemos, quando ele diz que “a ‘obra’ [do sequestrador/artista] joga com o poder pagão (o primeiro-ministro), o poder real (princesa), as relações entre mídia de massa e política, [e] a força disruptiva das redes sociais”[4].

Por enquanto, vamos apenas voltar nosso olhar crítico para a configuração midiática no país chamado Brasil.

A data é 27 de novembro de 2017. “Já aviso, de saída, que vou tratar mais dos projetos e ideias de um possível presidente da República do que de assuntos já explorados bastante em entrevistas anteriores”, foram as palavras de abertura emitidas pelo jornalista que faria a entrevista com o presidenciável Jair Bolsonaro no chamado Fórum Amarelas ao Vivo, evento realizado pela Revista Veja, que também compunha na grade de entrevistados, para o mesmo dia, políticos como Geraldo Alckmin, Marina Silva e Rodrigo Maia.

A referência do jornalista fazia alusão à conhecida pecha de racismo, xenofobia, homofobia e misoginia atrelada a Bolsonaro. Necessário abrir aqui um parêntese para dizer que nesta realidade brasileira – que pode até parecer, mas não é distópica –, enquanto grande parte da imprensa (a que pende para os partidos tidos mais à esquerda) tentava desconstruir a aura de mito que pairava em torno do candidato, outra parte, autodenominada imparcial (só que pendendo mais para partidos de direita), trabalhava no sentido de desconstruir a desconstrução.

Os jornalistas que tentavam desconstruir a desconstrução aparentemente se relacionavam com Gustavo Bebianno, o ex-secretário geral da Presidência da República no governo Bolsonaro e ex-diretor do Jornal do Brasil – falecido em 14 de março de 2020. De acordo com o próprio Bebianno[5], teria sido ele o responsável por intermediar a relação dessa parte “imparcial” da imprensa com o então candidato. Deduz-se daí que havia, no departamento comunicacional envolvendo as eleições brasileiras de 2018, duas espécies de lutas travadas: uma entre as narrativas da instituição imprensa contra as narrativas das redes sociais e outra entre os próprios setores da grande mídia.

Com fins de retomada descritiva, cabe reiterar que foi no Fórum Amarelas ao Vivo que Bolsonaro anunciou, em primeira mão, a participação do economista Paulo Guedes, o “Posto Ipiranga”, na sua campanha eleitoral e futuro governo, naquilo que futuramente seria chamado de um “casamento hétero” entre o presidente da República e seu ministro da economia. Apesar de Paulo Guedes ter conversado anteriormente com o candidato, nada havia sido realmente acertado sobre o noivado dos dois até o momento em que, talvez se sentindo pressionado e vendo uma boa oportunidade de alavancar-se nas preferências de outra parcela do eleitorado, o presidenciável anunciou o namoro.

Em 30 de julho de 2018, quase um ano depois do anúncio que, após ter sido amplamente divulgado pela mídia, colocaria Bolsonaro na rota de predileção dos liberais, o deputado estava sentado na cadeira giratória do Roda Viva, conceituado programa de entrevistas da TV Cultura. Desta vez, no entanto, o cuidado na ampliação do debate não foi exatamente tomado pelos entrevistadores. Perguntas envolvendo lei da anistia, ditadura, misoginia, racismo e homofobia voltaram a figurar o debate. Sobre economia, a única questão realizada (pela Revista Veja) foi de como ficaria o Ministério caso houvesse um “divórcio” entre o presidenciável e o “Posto Ipiranga”.

Claro que as questões colocadas na sabatina do Roda Viva eram relevantes, já que os sabatinadores tentavam mostrar ao público quão torpe era uma pessoa que não concordava, por exemplo, com políticas de ações afirmativas. O único problema é que, da parte do candidato, a abordagem já era tão conhecida que ele, a princípio demonstrando certo nervosismo, aparentemente sentiu-se mais à vontade à medida que o tempo transcorria. Era na área dos costumes, afinal, que ele vinha angariando mais votos. Olhando daqui, fica perceptível que quando as perguntas saíam do campo moral – e poucas foram feitas neste sentido –, o candidato titubeava.

“O que a mídia decide cobrir corresponde à opinião que eles têm sobre o que se passa na cabeça do público”[6], escreveu o psicólogo Daniel Kahneman, em 2012, no livro “Rápido e Devagar”. No caso específico das eleições brasileiras de 2018, porém, a mídia mais progressista parece ter se enganado com relação ao que se passava na cabeça do cidadão médio[7]. Aparentemente, o cidadão médio não estava muito interessado em pautas referentes ao preconceito. O cidadão médio só queria saber como conseguir emprego e não deixar que o país caísse em uma espécie de regime venezuelano. No fundo, acredito que seja difícil para cidadão médio pensar em algumas questões sociais específicas (que são, sim, importantíssimas na geração do bem estar social) enquanto não estiverem resolvidas a contento as suas questões econômicas.

Fato é que enquanto a parte mais conservadora da imprensa se contentava com o nome ‘Paulo Guedes’ figurando o discurso bolsonarista, a parte mais progressista, no afã de mostrar quanto os conceitos do presidenciável estavam aquém do que costumava pregar a elite política tradicional de centro-esquerda, acabaram também dançando conforme a música do candidato. No pós Roda Viva, por exemplo, a impressão que se teve foi que Jair Bolsonaro teria dado um “banho de mitagem” nos entrevistadores presentes. Nesse dia, o programa assumiu o primeiro lugar nos assuntos mais comentados do Twitter. A entrevista repercutiu nas redes. O candidato se fortaleceu ao som de Turn down for what[8].

Quando perceberam, tarde demais, que Bolsonaro estava em primeiro lugar nas pesquisas eleitorais, alguns veículos dessa imprensa promotora de debates – cite-se aqui principalmente a Folha de São Paulo, um dos maiores veículos de comunicação do país – empenharam ainda mais esforços no sentido de desmantelar a fama de anticorrupto[9] criada ao redor dele. Talvez tenham esquecido de levar em consideração a antiga lição de marketing que parece nunca sair de voga: falaram mal, mas falaram (muito!) do postulante. Os bolsonaristas mais empenhados levaram para o lado pessoal. Acirrou-se a caçada virtual à mídia de massa. E mais adesão ao candidato.

É consenso entre democratas que a imprensa tem papel preponderante em uma sociedade democrática. Para o doutor em educação e ex-representante da Unesco no Brasil, Jorge Werthein, a democracia pressupõe o equilíbrio de três poderes – o Executivo, o Legislativo e o Judiciário – que, exercendo mútuo controle, têm por finalidade o benefício do conjunto da sociedade. Em um artigo publicado em 2004 no Observatório da Sociedade da Informação, Werthein busca posicionar o lugar dos veículos de comunicação no exercício do jogo democrático:

A imprensa, ou para sermos mais genéricos, os meios de comunicação, formam hoje uma parte indissolúvel do sistema democrático moderno. Não há como conceber democracia sem uma imprensa livre e vigorosa. A imprensa é um dos canais por meio dos quais a sociedade civil se manifesta, emite opiniões, troca informações, vigia, denuncia, e cobra dos três poderes clássicos o perfeito funcionamento daquilo que entendemos como democracia. (WERTHEIN, 2004).

Por exercer vigilância considerável nas ações governamentais e no comportamento social, a imprensa foi chamada pela primeira vez de Quarto Poder por Edmund Burke – parlamentar inglês do século XVIII, autor do livro “Reflexões sobre a Revolução Francesa”, que, reza a lenda, em algum momento, na Câmara dos Comuns, teria apontado para o local onde se instalava os agrupamentos midiáticos e dito: “Ali está sentado o quarto estado, mais importante do que todos os outros.”[10]

Os debates em torno dessa terminologia, no entanto, correm fluentemente inclusive no meio acadêmico: até onde deve ir esse poder atribuído à imprensa e até que ponto ele é usado para manipular, mais do que informar, a opinião pública? Quando a notícia é emitida para proveito do emissor (como “meio de barganha” com os diversos agentes do poder público e privado) e quando ela é usada no real cumprimento de sua função? – são alguns dos questionamentos levantados.

“A matéria-prima da imprensa não pode ser considerada mera mercadoria, já que ela é, antes de tudo, um bem social que deve estar a serviço dos cidadãos e da cidadania”, argumenta Weirthen, enriquecendo a discussão.

Ainda que veículos tradicionais continuem sendo enxergados como indicadores de um Estado Democrático de Direito e propagadores da verdade (como ilustrado em Black Mirror), há, por parte do público militante – seja de qualquer viés político – uma desconfiança cada vez mais evidente com relação à veracidade ou imparcialidade do conteúdo propagado. Nas últimas eleições, tal desconfiança esteve possivelmente baseada na consideração, alimentada cada vez mais nas mídias pós-massivas, de que a imprensa esteja para a vigilância político-social como a classe política está para os deveres com o cidadão: pautada pela “formação ideológica” dos seus atores ou pela defesa dos interesses dos grandes conglomerados comunicacionais, bem como dos agentes privados e políticos.

Na contenda que engloba democracia versus imprensa tradicional versus mídias sociais, Manuel Castells, sociólogo espanhol e autor do livro O “Poder da Comunicação”, se posiciona ao lado das mídias sociais. Ele acredita que as mentalidades sejam moldadas de forma mais decisiva pela comunicação do que por qualquer forma mais incisiva de dominação. Para Castells, portanto, é a comunicação (não necessariamente institucionalizada como imprensa) que garante as liberdades democráticas; e é à medida que “o gênio da liberdade” sai da “garrafa lacrada da mídia” que os povos estão mais à vontade para abraçar sua independência.

O poder depende do controle da comunicação, assim como o contrapoder depende do rompimento desse controle. E a comunicação de massa, a comunicação que potencialmente atinge a sociedade como um todo, é moldada e administrada por relações de poder, tem raízes nos negócios da mídia e nas políticas de Estado. O poder da comunicação está no âmago da estrutura e da dinâmica da sociedade. (CASTELLS, 2009, p. 21).

Outro fenômeno a ser observado na guerra de informação é que com a ocorrência da internet e com as mídias digitais protagonizando cada vez mais o ambiente social (formando a tal sociedade de rede nominada por Castells), ocorre um arrefecimento progressivo da informação unidirecional – que é a forma de comunicação, sem retorno, com a qual televisão, jornal e rádio se direcionam ao público – e um aumento no compartilhamento de informações em ambiente virtual, multidirecional e diverso, o que demanda, ainda de acordo com Castells, grande esforço por parte da mídia tradicional no sentido de monopolizar também o ciberespaço[11]:

Esta forma de comunicação vertical [imposta pelos veículos tradicionais] é destruída em um mundo caracterizado pela prevalência das redes horizontais de comunicação multimodal. Desse modo, múltiplas mensagens emergem e múltiplos sentidos podem ser construídos por atores que às vezes concordam sobre o sentido dado e às vezes discordam sobre a construção desse sentido, mas que são, no entanto, amplamente independentes em relação à estratégia de estabelecimento de agendas realizada por aqueles que decidem no paradigma da comunicação de massa. (CASTELLS, 2009, p. 32).

Mesmo considerando os benefícios das redes sociais no sentido de democratização da informação, é preciso reconhecer que o envolvimento dessas mídias nas últimas eleições do Brasil fez chover fake news (para usar a expressão do atual ministro da educação do país[12]). Em Black Mirror, a polêmica sobre tais notícias falsas é representada pela dúvida do público com relação à falsidade ou veracidade da informação recebida pela rede. Sobre isso, André Lemos escreveu:

As mídias sociais são, certamente, canais de divulgação e viralização da informação, criando uma irreversibilidade na propagação das notícias e boatos. Suas características são a viralização, a desconfiança e o anonimato. Já as mídias de massa aparecem como local de confirmação, de busca da certeza dos fatos, de compartilhamento da verdade, mesmo que elas sejam ideologicamente administradas por grandes corporações. (LEMOS, 2018, p. 25).

Parte da imprensa fez campanha, na disputa de narrativas do último pleito brasileiro, contra tais notícias falsas, se colocando inclusive no papel de checadora de fatos. É sob esse prisma que me ponho a fazer uma provocação: em tempos de redes sociais; logo, de atores sociais autônomos (sem hierarquia nem líderes que os privem – e não estamos aqui falando dos robôs comandados por certos detentores do poder de agora), não seria a desinformação virtual também uma reação à manipulação da informação unidirecional?

Se, para citar a terceira lei de Newton, toda ação provoca uma reação de igual ou maior intensidade, a percepção por parte de um público militante[13] e massificado de que haveria certo “manuseio” na mensagem emitida pela grande imprensa – evidenciado em “omissões convenientes e verdades parciais”[14] com fins de controlar o debate público de acordo com seus interesses e/ou sua ideologia – pode muito bem ter gerado como reação deste mesmo público (agora não apenas receptor, mas também atuante nas redes) outra manipulação ou uma inverdade descarada.

Reflitamos: será que este fator não contribuiu para a disseminação de notícias falsas nas últimas eleições? Repetindo: se colocando em posição de combate a uma verdade manipulada, eleitores militantes não tenderiam a lançar em suas redes outras informações manipuladas, desinformando o público? “O uso seletivo da verdade pode ser tão perigoso quanto a mentira”, escreveu o jornalista Luciano Trigo em seu livro sobre narrativas. A partir deste princípio, em ambiente de guerra de informação e manipulação, não teríamos, na verdade, uma desinformação sendo combatida com outra?

A segunda provocação à imprensa é: em um mundo onde a mídia de massa deve exercer constante vigilância sobre as ações político-sociais (informando o público e não controlando o seu imaginário sobre o que ocorre nas diversas esferas), quem ganha com essa manipulação e a consequente atitude reativa a ela? Certamente não é a sociedade.

Saindo das provocações e voltando ao assunto relacionado à influência do Quarto Poder na seara política brasileira, é preciso destacar que em outubro de 2018 a BBC News Brasil publicou uma matéria que tratava da influência das métricas divulgadas por pesquisas eleitorais nas decisões do eleitor.

Em infográfico, o site mostra uma pesquisa do Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) indicando que 42% dos brasileiros levavam em consideração as informações veiculadas nos noticiários televisivos para decidir sobre o voto; em segundo lugar no processo decisório, com 38%, figuravam os debates entre candidatos (que, em eleição presidencial, se dá por meio da televisão); em quarto e quinto lugares estavam as notícias nos jornais e propagandas na rádio e na TV (30 e 21%, respectivamente). As notícias na internet e redes sociais estiveram na casa dos 17% a 20%, figurando em sexto e sétimo lugar na ordem de preferência dos eleitores.

Os dados veiculados pelo Ibope se mostraram teóricos e tradicionais. Na prática, tudo se manifestou “muito novo, primeiro-ministro”[15].

Na confluência de disputa pela presidência da República do Brasil, com embate acirrado entre parte da sociedade civil, entre setores da própria imprensa e entre a imprensa tradicional e as redes sociais, é de se supor que houve uma desconfiguração da pesquisa publicada pela BBC – lembrando que, a princípio, Bolsonaro angariava apenas 8 segundos de propaganda em TV e que o candidato não participou da maioria dos debates – e que as mídias pós-massivas venceram a imprensa na guerra de narrativas, concedendo a vitória a Jair Bolsonaro.

Talvez esse pensamento de fato se mostrasse factível não fosse pela facada.

Trazendo Black Mirror à tona, podemos fazer uma analogia entre o dedo cortado da princesa e o golpe de faca que Adelio Bispo imprimiu em Jair Bolsonaro no fatídico dia 06 de setembro de 2018. A facada, nesse caso, fez mais do que simplesmente recrudescer o debate; ela colocou o então candidato sob as vistas de uma parte do eleitorado que nunca tinha ouvido falar dele antes.

A facada, ao mesmo tempo em que afastou definitivamente Jair Messias dos debates entre presidenciáveis e, por consequência, dos ataques que certamente viriam de seus adversários, o aproximou, enquanto vítima, de uma parcela do público que passou não somente a conhecê-lo, como também empatizou com a sua situação. A espetacularização em torno da facada colocou o presidenciável no horário nobre da Globo, do SBT e de todos os veículos televisivos que conversam com a grande massa.

Para muitos especialistas, a facada fez com que o candidato vencesse os oito segundos.

Para finalizar o capítulo imprensa, deixo claro que este texto não visa condenar as mídias tradicionais, muito menos responsabilizá-las pela vitória de Jair Bolsonaro. Além de não existir resposta pronta e definitiva, é óbvio que vários outros aspectos contribuíram para tal. A ideia aqui é apenas de, a exemplo da série, estabelecer uma discussão abarcando a sociedade do espetáculo, “o poder pagão, as relações entre a mídia de massa e política e a força disruptiva das redes sociais”[16] no cenário brasileiro.

Na próxima semana, falaremos do Episódio Momento Waldo e o espetáculo político.

Nos vemos lá?

 

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Rodapé:

[1] LEMOS, A. Isso (não) é muito Black Mirror. Editora da UFBH: Salvador, 2018.
[2] Assuntos mais falados na plataforma.
[3] Troca de mensagens eróticas ou sensuais através de dispositivos móveis.
[4] LEMOS, 2018, p. 29.
[5] Em entrevista ao Programa Pânico na Rádio, da Jovem Pan (em 18 de novembro de 2019), o advogado Gustavo Bebianno se colocou como intermediador de Jair Bolsonaro junto à parte da imprensa. Acesso em 19 de outubro de 2019, pela plataforma do YouTube.
[6] KAHNEMAN, 2012, p. 17.
[7] Uma forma carinhosamente bem-humorada de chamar cidadãos comuns; da classe trabalhadora. A maioria de nós.
[8] Trecho de música do DJ Snake e do Lil Jon que, acompanhado de um par de óculos escuros, passou a ser símbolo das “mitadas” (efeito de mitar advindo do mito – quando ele diz algo que, na visão bolsonarista, detona uma narrativa oposta) de Bolsonaro.
[9] “Podem me chamar de tudo, menos de corrupto”, dizia Jair Messias Bolsonaro.
[10] Publicado em 2002 pelo Jornal Correio da Manhã.
[11] Em termos simples, Ciberespaço é a radiação da comunicação por rede de computação.
[12] Em 30 de maio de 2019, o ministro Abraham Weintraub publicou um vídeo no Twitter, com direito a guarda-chuva e dramatização, dizendo que estava “chovendo fake news” relacionadas ao Ministério da Educação.
[13] Trato aqui especificamente do público que tem imaginário moldado pela necessidade de defesa do seu grupo, não dos “robôs sociais”. Apesar de existirem de fato robôs atuando nas redes – no acompanhamento de personalidades privadas ou públicas –, a partir de uma ação partidária que os utiliza para cooptar as mentes, não podemos negar que exista também uma militância real atuando neste meio, não é mesmo?
[14] TRIGO, 2018, p. 32.
[15] Para parodiar o assessor do primeiro-ministro de Black Mirror.
[16] LEMOS, 2018.

Adna Maria é pernambucana, bibliófila e aspirante a escritora. Tem formação em Jornalismo e Geografia.