BLACK MIRROR | E as Eleições Presidenciais de 2018 – TECNOLOGIADEMOCRACIA

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Black Mirror é uma série inglesa, disponível no canal de streaming Netflix, que se utiliza de características ficcionais distópicas para abordar o tema ‘tecnologia’ em seu aspecto mais nocivo. Enquanto ficção, a produção traz um fato real (o lado funesto da tecnologia) gerado em proporções elevadas, o que desperta questionamentos no espectador. Este último, ao mesmo tempo em que questiona, tende a crer que tudo aquilo só ocorra mesmo na imaginação do autor, até perceber que – surpresa! – a ficção se tornou real. É o velho debate filosófico sobre ser a arte imitadora da vida ou a vida imitadora da arte.

Não podemos negar que a tecnologia, aferida na série, carrega consigo aspectos positivos e negativos. Em perspectiva mais estrita, a Tecnologia da Informação e Comunicação oferece ao público amplas referências, responsáveis tanto pelo auxílio quanto pelo desserviço nas atividades cotidianas, na medida em que inverdades e opiniões podem ser publicadas e massivamente disseminadas como realidade, prejudicando a credibilidade de pessoas, grupos e pensamentos honestos. Neste aspecto, talvez caiba outra pergunta filosófica: a tecnologia é nociva ao indivíduo ou o indivíduo é nocivo à tecnologia?

Matheus Fiore (2016), crítico de cinema e editor do site Plano Aberto, acredita que a análise feita sobre a crítica de Black Mirror aos avanços tecnológicos “não poderia estar mais errada”. Para Fiore, “Black Mirror é, acima de tudo, uma série sobre nós, humanos. É sobre como nós nos vemos, como sentimos, como tratamos nossos semelhantes, pensamos e agimos.” Assim, a crítica de Charlie Brooks, seu criador, seria ao “imperialismo, xenofobia, racismo, manipulação e controle de massas. A face sombria da humanidade que nós relutamos em aceitar e corrigir.”

Sendo um problema tecnológico ou humano, o fato é que no último pleito das eleições, os brasileiros, usando aparelhos tecnológicos e redes sociais, puderam se envolver de tal forma na política que aspectos de suas vidas foram transformados. A sociedade vivenciou – ainda vivencia! – momentos de ódio, confusão, nicho ideológico, desagregação, verborragia e relações desfeitas. Tudo em meio a vultosas ondas de notícias falsas. Enquanto isso, a imprensa, tradicionalmente conhecida como o Quarto Poder, passou por fortes desconstruções.

Para fins de contextualização, torna-se imperativo lembrar que manifestações sociais, políticas, protestos e revoltas não são privilégio das sociedades atuais. No Brasil, entre golpes e contragolpes, Marcha da Família com Deus pela Liberdade (1964), Marcha dos Cem Mil (1968), Diretas Já (1984), Caras-pintadas (1992), Jornadas de Junho (2013), Movimento Vem pra Rua (2014) – só para citar alguns – chegou-se ao segundo impeachment pós-redemocratização.

Dilma Vana Rousseff, 36ª Presidente da República do Brasil, foi acusada de cometer “pedaladas fiscais” e deposta do cargo em 2016. Aumento de gastos do governo, atropelo de lei orçamentária, falta de articulação política e erros de gestão levaram o país à “maior crise do período pós-industrialização”, de acordo com o que Antonio Corrêa de Lacerda, coordenador do Programa de Estudos Pós-Graduados em Economia Política da PUC-SP, falou à Revista Época em abril daquele ano.

“Países que entram em crises severas, como a atual, dificilmente saem delas sem sofrer mudanças – todas profundas, muitas certamente ruins, talvez algumas boas”, considerou o coordenador da PUC citado pela Época. Não se sabe se Lacerda profetizou ou apenas chegou a uma conclusão baseada em anos de profissão, mas o fato é que dois anos depois, em meio a mais uma luta histórica entre progressistas e conservadores, com fomento maciço nas redes sociais, um candidato que estava mais para youtuber pop do que para presidente da República foi eleito.

Acontece que aliada à crise econômica, uma crise política de elevadas proporções acabou por abalar as estruturas dos partidos tradicionais. Denúncias de corrupção envolvendo atores da Petrobras (uma das maiores empresas petrolíferas do mundo, tendo como acionista majoritário o Governo do Brasil); agentes políticos (responsáveis por indicar e manter diretores da petrolífera); intermediadores financeiros (responsáveis pelo pagamento de propinas) e empreiteiras nacionais (que se cartelizavam para ‘concorrer’ às licitações da estatal), fizeram surgir “a maior investigação de corrupção e lavagem de dinheiro” do Brasil, a Operação Lava Jato[1]. Não podemos deixar de mencionar ainda que, atuando desde 2014, a Lava Jato divide opiniões no ambiente nacional. Aclamada positivamente por uns e acusada de partidarismo político por outros, a Operação, sem dúvida, também fez parte da “revolução” desembocada no resultado eleitoral de 2018.

Para concluir, é importante também lançar uma rápida visão sobre o cenário mundial, considerando a onda conservadora – ancorada no liberalismo econômico – que pareceu arrastar do poder as forças progressistas em países como Estados Unidos da América, Paraguai, Colômbia, Chile[2], Alemanha, Austrália, Polônia, Hungria e outros.

Não temos espaço suficiente, neste colóquio, para enumerar os erros que levaram as esquerdas a perder parte do monopólio ideológico para os seus oponentes. Para além deste fator, no entanto, vale não perder de vista que a alternância de poder, necessária às sociedades democráticas, também contribui para o fenômeno da mobilidade política. Negar isto equivaleria a negar o próprio exercício da democracia; esta que, parafraseando Churchill, pode ser o pior [e mais perigoso] dos regimes políticos, mesmo não havendo outro melhor que ele. Além disso, considero ser normal que longos períodos dirigidos por um grupo político específico deságuem em crise; cedendo o espaço necessário para que outro grupo também atue, também erre e também sucumba (tome-se como exemplo o caso do Governo Macri, na Argentina[3], e do já citado Chile).

Dito isto, é hora de esclarecer a que viemos. O presente projeto visa traçar um paralelo entre a distópica Black Mirror e as eleições presidenciais brasileiras de 2018. A proposta é mostrar elementos da série que se assemelhem a ocorrências sociais observadas no último pleito – o que a sociedade brasileira viveu naquele momento daria, aliás, um excelente enredo para outro livro de George Orwell, caso o autor estivesse vivo.

A série de textos ora proposta baseia-se, portanto, na análise dos fatos políticos e sociais e discorre sobre como a Tecnologia da Informação – mas não apenas ela, como vimos – pode ter contribuído para a eleição de um presidente que foi – e é – arrogado como fascista pela esquerda e considerado deputado de baixo clero[4] no Congresso Nacional.

É na discussão pretendida em torno do objeto que o tema se torna interessante, visto que as eleições de 2018 tiveram resultado praticamente imprevisto por grande parte dos analistas políticos; tanto, que empenhos não faltaram no sentido de responder, posteriormente ao pleito, ao que teria levado o atual presidente da República do Brasil à vitória. As sugestões apontam para as redes sociais como responsáveis diretas pela entrada de Jair Messias Bolsonaro no Palácio do Planalto. Mas, nesse meio-tempo, como a imprensa tradicional, o próprio candidato e a sociedade se relacionaram? É o que pretendemos investigar.

E para não dizer que não falamos de sintaxe…

No livro “Em Busca da Prosa Perdida”, o jornalista e escritor Antonio Fernando Borges pontuou que a coesão e a harmonia de um texto dependem da colocação de três componentes: a voz, determinante identitário do autor; o tom, que estabelece sua postura; e a temperatura, indicadora do grau de veemência da voz e do tom.

Juntos, estes três elementos constroem o que se costuma chamar de ponto de vista – que não é apenas uma opção estratégica para o melhor rendimento de um texto, mas, sobretudo, a assinatura individual de seu autor. Tudo isso vai constituir o chamado estilo, que é a soma ou combinação desses elementos-chave, mas que significa principalmente a adequação dos recursos do escritor às suas necessidades intelectuais e expressivas. (BORGES, 2013, p.54).

Neste ponto, é imprescindível expor que este é um trabalho ensaístico; portanto, opinativo. Logo, é gentil por parte do leitor entender que serão adotados aqui tom e temperatura próprios de quem observa eventos verídicos a partir de um ponto de vista pessoal. Se, apesar do exposto, o leitor insistir na tese da isenção no jornalismo, devo treplicar que, mesmo tentando a objetividade com toda pujança de que sou capaz, a total neutralidade é uma utopia que só existe mesmo na cabeça dos mais desavisados – ou no interesse dos mais desonestos.

Ainda abordando a questão linguística, considero importante alertar que aqui as palavras extremas, adjetivadoras dos movimentos políticos tanto de um lado quanto do outro do sistema ideológico, se utilizadas, traduzirão acontecimentos factuais, não exatamente o pensamento desta autora. Particularmente, entendendo que o uso da linguagem seja de vital importância para o enquadramento partidário, me reservarei ao direito do frescor semântico e não contribuirei para o que entendo ser um acirramento da brutalidade sectária.

Finalmente, cito o jornalista Luciano Trigo quando diz que “narrativas não são decalques da realidade: são ficções mais ou menos verossímeis sobre essa realidade, que atendem a determinados interesses em detrimento de outros”[5].

Na próxima terça, abordaremos o Episódio Hino Nacional e conversaremos um pouco sobre o papel da Imprensa nas eleições.

A gente se vê!

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Rodapé:

[1] Hoje desgastada, após vazamento de conversas efetuadas entre seus membros e entrada do juiz Sérgio Moro para o atual Governo.
[2] Apesar dos protestos recentes (2019) contra o liberalismo exacerbado do governo chileno.
[3] Mauricio Macri derrotou o peronismo (dos Kircheners) quando foi eleito presidente da Argentina, em 2015. Nas eleições recentes, em outubro de 2019, Macri foi derrotado nas urnas para a chapa composta por Alberto Fernández e Cristina Kirchner – políticos localizados à esquerda na régua peronista.
[4] “Não tinha papel de liderança nos partidos políticos a que pertenceu, nunca assumiu cargos no governo federal ou posição de destaque na Câmara dos Deputados”, foi a designação da BBC News em 2018.
[5] TRIGO, 2018, p. 14.

 

Adna Maria é pernambucana, bibliófila e aspirante a escritora. Tem formação em Jornalismo e Geografia.