DA PESTE NEGRA | Ao Covid-19

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“Sempre houve no mundo pestes e guerras; entretanto, pestes e guerras nos acham desprevenidos”, disse Albert Camus no agora tão famoso A Peste”, livro publicado pela primeira vez em 1947, pós Segunda Guerra Mundial.

Desprevenidos – assim nos encontrou o novo coronavírus.

Estamos em 12 de maio de 2020 e os números do Covid-19 não são menos que impressionantes. Se a apuração estiver correta, o total de infectados no mundo é da ordem dos 4,1 milhões. Destes, mais de 286 mil vidas foram tiradas. No Brasil, de acordo com dados do Ministério da Saúde e secretarias estaduais, já são 169.626 casos confirmados – em 23 de abril, quando comecei a escrever este artigo, tínhamos cerca de 48 mil casos – e 11.656 óbitos (2.934 em 23 de abril). Tudo isso apenas cinco meses depois do surgimento do vírus em Wuhan, na China. 

Logo que o Covid-19 chegou ao Brasil, especialistas alegavam que seu maior problema não estava no índice de letalidade (6,8% hoje) e sim na sua capacidade de espalhamento. Se o vírus é capaz de se propagar em tão pouco tempo, aumenta-se, por consequência, o número de mortes causadas por ele, diziam. A indicação era de que poderiam vir a óbito idosos com problemas de saúde e pessoas com baixa imunidade.

Neste momento, no entanto, não temos outros fatos que não estes: a curva de contágio está aumentando progressivamente em alguns estados brasileiros; os achismos desembocam em guerra política entre Governo Federal e Governos Estaduais; os que prezam pela saúde conflitam com os que defendem a economia; e até a Organização Mundial da Saúde (OMS) parece meio perdida no meio do imbróglio mundial. 

Desprevenidos, temos teorias infinitas para nenhuma solução concreta. Parece irônico que séculos depois de passada a nefasta Peste Negra, e com todo o aparato tecnológico que nos presta auxílio nos dias atuais, ainda estejamos enfrentando praticamente o mesmo dilema: sabemos de onde vem, mas não como se comporta nos diferentes agentes ou quando termina o flagelo imposto pelo popularmente conhecido “corona”.

Iniciada na Ásia Central e posteriormente estendida para a China e a Rússia, a Peste Negra (ou Peste Bubônica), uma das principais catástrofes sofridas pela humanidade, chegou à Europa em 1347; grosso modo, por meio das mercadorias trazidas por genoveses e venezianos, através da Rota da Seda (comércio). Entrou na Europa pela Sicília, na Itália, e devastou a Alemanha, a Escócia, a Escandinávia, a Polônia e Portugal. Apesar disso, é considerada apenas a segunda grande “enfermidade epidêmica amplamente disseminada” de todos os tempos. A primeira teria se dado no Egito comandado pelo Imperador Justiniano, naquele longínquo 541 depois do Mestre.

A pandemia da Peste Negra ocorreu em uma época em que a população europeia sofria grande escassez de alimentos. Acontece que trinta anos antes do seu acometimento, milhares de indivíduos morreram da fome causada pelas chuvas abundantes que quebraram as safras no continente. Com a chegada da Peste, a situação se agravou: negócios foram paralisados, comerciantes faliram e escolas e universidades fecharam as portas por falta de pessoal capaz que as dirigisse – parece que estamos descrevendo os dias atuais, mas trata-se do século 14 mesmo.

Como essa era uma doença antes inexistente na Europa, as pessoas não possuíam anticorpos contra ela e quase todos os contaminados morriam em poucos dias. Apesar disso, alguns indivíduos acabavam por se curar e outros pareciam imunes à enfermidade. “Somente isto pode explicar como embarcações infectadas conseguiram realizar a longa viagem de Caffa até a Sicília sem que tivessem se tornado navios fantasmas, navegando à deriva pelo oceano”, sugere José Martino no livro “1348, A Peste Negra”.

A medicina não era desenvolvida, o uso de medicamentos não era uma realidade e muitos acreditavam que a doença configurava uma espécie de punição divina. Por isso mesmo, notícias de que a morte assolava a Ásia não preocuparam tanto o povo europeu. Para eles, o Oriente estava distante demais e era habitado apenas por infiéis; sofredores da vontade divina – também neste aspecto as coisas não mudaram muito daqueles tempos para cá.

As estimativas das perdas ocorridas na pandemia que durou de 1347 a 1352 ainda são discutidas. Chegou-se a considerar que a Peste teria levado a óbito entre 75 e 200 milhões de pessoas, mas hoje acredita-se que os números foram insuflados. De acordo com o historiador Georges Duby, citado por José Martino, a perda teria se dado na ordem dos 70 milhões. Cálculos recentes, porém, estimariam que o continente europeu possuía cerca de 75 milhões de habitantes àquela época. Como este artigo não intenciona perder-se em citações cansativas, vamos pular a parte que fulano cita beltrano e concluir que, atualmente, aceita-se que a taxa de mortalidade da Peste Negra na Europa tenha sido na ordem de 1/3 da população (25 milhões de pessoas).

No infortúnio de agora, discute-se bastante qual a melhor forma de vencer o Covid-19. Uns defendem o isolamento horizontal (com regra clara: todos devem ficar em casa); outros defendem o isolamento vertical (pregando o afastamento social de um grupo específico de pessoas); alguns estados brasileiros entram no chamado lockdown (bloqueito total das atividades) e defensores de uma destas estratégias acabam por considerar os defensores de outra estratégia como maus indivíduos, seres cruéis, entornadores do “caldo social”.

Bem, ao que tudo indica, a coisa não era muito diferente quando da pandemia bubônica. Alguns autores afirmam que as cidades usuárias do método da quarentena para os contaminados pela Peste conseguiram amenizá-la; porém – e sempre há um porém em qualquer história – alguns líderes lidaram com a epidemia generalizada de forma bem questionável.

Em Veneza, uma das maiores e mais prósperas cidades de toda a Europa, há registros de que chegaram a falecer cerca de 600 pessoas por dia. Algumas das medidas tomadas para evitar a mortandade neste burgo foram: controle de embarcações no regime de quarentena, sob pena de morte para quem desobedecesse; fechamento de tavernas, numa espécie de lei seca; e permissão para que os cirurgiões, antes considerados como meros artesãos, praticassem a medicina como qualquer outro médico. Apesar de todas as medidas tomadas, o resultado foi catastrófico. Calcula-se que cerca de 60% da população veneziana tenha sucumbido à Peste ao longo dos 18 meses em que ela permaneceu na cidade.

Em Milão, local onde a taxa de mortalidade se deu de forma relativamente baixa, as medidas tomadas para combater o avanço da doença foram extremas e cruéis. Estima-se que, em 1348, Milão comportava cerca de 100 mil habitantes. Então, a cidade era governada pelos déspotas da família Visconti, que, quando informados de doentes no interior da cidade, mandavam emparedar as portas e janelas de suas casas, prendendo lá dentro tanto os moribundos quanto sadios que os acompanhavam. Assim, Milão perdeu apenas 15% da sua população.

Nuremberg, cidade que também apresentou baixo índice de mortalidade – na via oposta de Milão, adotando a humanidade como método e a higiene das ruas e remoção de dejetos do ar livre como prática -, possuía cerca de 20 mil habitantes e, antes mesmo da chegada da Peste, já era célebre pelo seu sistema de saúde pública. Ao saber da morte em massa nas cidades vizinhas, os governantes de Nuremberg proibiram o lançamento de lixos em vias públicas, estimularam a prática de banhos pessoais mais frequentes e mandaram queimar cadáveres e roupas contaminados fora das muralhas do burgo. Calcula-se que a cidade perdeu apenas 10% da população.

Se hoje em dia, o álcool gel virou item essencial para os indivíduos e há discussão sobre indicações ou contraindicações de certas drogas “cloroquinais”; na Idade Média – que não é exatamente conhecida por extremados hábitos de limpeza – as medidas de apaziguamento eram ainda mais peculiares. Em muitas cidades, pessoas foram desencorajadas da prática do banho, pois acreditava-se que a limpeza da pele abria os poros e facilitava entrada da Peste no corpo. Alguns eram encorajados a ingerirem suas próprias urinas e fezes, para não espalhar a doença. Além disso, e ao contrário de hoje em dia, naquele momento era corriqueira a recusa dos médicos no atendimento aos pacientes e o abandono dos infectados por parte dos parentes.

Então procuraram os culpados. Os judeus que o digam. Católicos nunca perdoaram judeus pela morte de Cristo; acrescente-se a isto o fato de que na idade das trevas judeus emprestavam dinheiro a católicos a juros altos, fica claro o resultado: a comunidade judaica, junto com muçulmanos e  leprosos, tornou-se responsável pela propagação da Peste. Milhares de judeus foram perseguidos, assassinados, queimados, afogados, por toda a Europa. O fato de eles também serem vitimados pela doença era um detalhe minúsculo e ignorado no meio da confusão.

E ainda temos os presságios. Poucos anos antes de a Peste Negra assolar a Europa, houve muitos deles: em 1336, a passagem do cometa Halley foi vista por muitos como um sinal do flagelo que estava por vir; os astrólogos pregavam que a má conjunção dos astros seria catastrófica naquela década fatal. Para o homem simples, tamanha tragédia configurava a punição divina em virtude dos pecados humanos. “E se Deus estivesse furioso com a transferência da sede do papado de Roma para Avignon?”, perguntavam-se alguns. Como a doença acabou por não dissociar ricos de pobres, nem crianças de velhos, nem pecadores de não pecadores, a crença na punição divina foi enfraquecida.

E como monges e padres também não escapavam do medo (nem) da morte, a extrema unção foi suspensa nesse período. A partir de então, a Igreja Católica começou a declinar em termos de influência por não conseguir salvar vidas com a sua fé – fato de grande importância para a Reforma Protestante. A perda de influência nos desígnios eclesiásticos também desembocou, nos séculos seguintes, em maior credibilidade para com os cientistas, no ateísmo (inconcebível antes do século 15) e na estabilidade da razão em oposição à religião.

Pensando a luta de classes e a mudança no trabalho e nas relações trabalhistas – uma preocupação também de agora, principalmente se considerarmos o dilema tecnologia versus pandemia versus (falta de) qualificação  -, outro efeito (menos danoso) da Peste Negra se deu com o aumento de salários e a melhoria nas condições de trabalho dos camponeses. Por causa da baixa de mão de obra, os proprietários de terra foram obrigados a concorrer por cada trabalhador. No final do século 14, tentativas de senhores feudais de voltarem a antigos hábitos ensejaram revoltas campesinas, o que possibilitou a melhora permanente das liberdades dos trabalhadores do campo.

Parece claro que não conseguirei assinalar aqui todas as semelhanças verificadas entre a aflitiva Peste Negra de 1347 e o assustador Covid-19. Mais, chegamos ao fim deste artigo e continuamos sem respostas para os dissabores humanos. Cabe-nos, entretanto, observar que talvez a humanidade não tenha sofrido lá grandes alterações comportamentais no longo tempo passado entre a pandemia medieval e a pós-moderna. Mesmo com todo o aparato tecnológico disponível hoje em dia. Dizem, no entanto, que crises são agentes transformadores. Dizem que o mundo muda o tempo todo. Dizem que nada será como antes depois do novo coronavírus.

Veremos.

Este artigo foi escrito tendo como base bibliográfica:
Livro: 1348, A Peste Negra, de José Martino – disponível no kindle unlimited
Site: https://olhardigital.com.br/coronavirus/noticia/covid-19-brasil-registra-mais-165-mortes-total-chega-a-2-906/98089

Adna Maria é pernambucana, bibliófila e aspirante a escritora. Tem formação em Jornalismo e Geografia.