VILLANI PAZ | “A escola do futuro está nascendo num parto prematuro e sofrido”

Créditos: Imagem enviada do arquivo pessoal da entrevistada.

Senhoras e senhores, o ping-pong de hoje é com a simpaticíssima Villani Paz. Pernambucana de 33 anos e professora da rede estadual de Pernambuco e do munícipio de Caruaru, Villani leciona Língua Portuguesa no ensino Fundamental e Médio há 12 anos.

Nesta nossa conversa, falamos sobre educação, pandemia e tecnologia. Tomara que vocês curtam tanto quanto eu curti.

A – Villani, primeiro de tudo, muito obrigada por ter atendido ao nosso convite para esta entrevista. Então, você é professora de português, mestranda em Letras e está pesquisando sobre as contribuições do Podcast para o ensino da língua portuguesa, certo? A pergunta que não quer calar é: como esta ferramenta pode contribuir para o ensino da língua portuguesa?

Olá, Adna! Agradeço a você pelo espaço! Desde minha formação inicial, percebo a existência de um certo hiato entre o que a escola tem ensinado e as práticas sociais de linguagem. É fato que vivemos em plena era da informação e como sujeitos sociais que somos, estamos conectados de diversas formas com as inovações tecnológicas que vão emergindo. Por esta razão, com base na prescrição didático-metodológica para o currículo de documentos como PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) e BNCC (Base Nacional Comum Curricular), pensei no Podcast como ferramenta de ensino de língua oral. Já passamos pelo advento dos jogos, dos sites, do e-mail, dos chats, das redes sociais, das plataformas de streaming on demand (conteúdos sob demanda do usuário) e de alguma forma já se testou as possibilidades de inclusão dessas ferramentas em sala de aula de ensino de língua, como vemos nas diversas pesquisas que temos sobre o ensino com TDIC (Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação). Esses trabalhos demonstram que quando ensinamos na perspectiva multimodal e multissemiótica, tal qual o funcionamento da sociedade atual, a aula se torna mais interessante, a aprendizagem se torna mais significativa e o objetivo do ensino pode ser vislumbrado: a competência linguística nas diversas práticas sociais de interação.

A – E você pode dar um exemplo de como aplicar a metodologia do ensino por meio do Podcast?

O Podcast pode ser usado de formas diversas. Exemplo: a escola pode criar um que funcione como uma rádio; dessa forma, a difusão das informações será mais rápida e todos, inclusive a família, podem ter acesso. Nas aulas de línguas, pode ser usado na produção de texto oral (conto, notícia, resenha, seminário, propaganda, análise literária). Penso também nas demais disciplinas, como a educação física, em que os exercícios podem ser narrados. E, a depender da criatividade dos professores, esta ferramenta pode servir para outras finalidades: meditação, tutoriais para experiências. É muito amplo.

A – Onde o aluno teria acesso a esse tipo de aprendizado? Junto aos professores na sala de aula ou em casa, com os pais?

Lembro-me de uma fala do prof. da Usp José Manoel Moran, num simpósio promovido pela UFPE em 2013, apontando para um fato curioso: as pessoas aprendem sobre as Tecnologias Digitais na prática, no uso, nas interações sociais, não na escola. Um exemplo claro disso é que ninguém lê manual de instruções de um celular novo, não é verdade? Fato é que o aluno já chega “sabido”! Essa meninada já vem com um conhecimento de mundo bastante considerável, uns mais outros menos, mas sabem usar as TDIC melhor que a gente. O letramento (ensino de leitura e escrita) digital deve ser incluso pela escola, mas não é dela que depende. A escola deve orientar o uso da língua em meios digitais; ensinar os gêneros textuais digitais (como o Podcast, que, afinal, é manifestação da língua), mas ela não dá conta de ensinar tudo sobre os recursos digitais. Então, o caminho é incluir ao máximo essas ferramentas no dia a dia da escola. Não adianta proibir uso do celular, trancar e bloquear laboratório de informática, botar mil senhas de wifi (que logo são descobertas pelos alunos). A geração de hoje quer se conectar e está certa! Cabe aos pais, professores e escola determinarem os limites e orientarem o bom uso das TDIC. Todos temos responsabilidade formativa sobre esses meninos.

A – Nós estamos em um momento complicado em que escolas fecharam as portas e muitas crianças e adolescentes ficaram desassistidos. Você havia me dito anteriormente que está dando aulas remotamente na rede estadual desde o início da quarentena…?

Isso mesmo! Desde 18 de março estamos sendo desafiados diariamente a encontrar meios de garantir a continuidade da aprendizagem. A escola está tendo que se redesenhar, se reinventar. Os professores tendo que mudar metodologias a fim de levarem o conhecimento para seus alunos. Os alunos e pais em casa se deparando com a responsabilidade, protagonismo e autonomia sobre a aprendizagem, que são extremamente importantes no processo de formação. Aquela história de que escola e família precisam andar juntos, que o conhecimento não está centrado no professor e que precisamos nos atualizar constantemente é a mais concreta verdade. A pandemia nos colocou diante da realidade de que o mundo  não funciona mais no modo analógico. Tenho sido desafiada a encarar câmera, a administrar o Google Classroom [sistema de gerenciamento de conteúdo para escolas], a me aproximar e ser mais empática com meus alunos, que, como eu, são seres humanos e estão lutando do outro lado da tela para não ficarem para trás. E isso tem sido uma nova escola pra mim, uma experiência que jamais vou esquecer, vai mudar meu trabalho para sempre.

A – Quais dificuldades mais percebe nos alunos neste, digamos, ensino à distância meio forçado?

Relatos como: “estou sem internet”, “não tenho celular”, “moro na zona rural”, “o clima aqui em casa não está deixando eu estudar” (violência doméstica, desemprego ou doença na família, falta de estrutura, etc) são diários. Impossível não se sensibilizar e se preocupar, pois são muitos. Para os que não compreendem o conteúdo, deixo o canal aberto para explicações via WhatsApp ou chat do Class. Só que no geral, eles sentem falta daquilo que há de mais importante e fascinante no processo de aprendizagem: a interação. Se queixam de estarem sozinhos e isso acaba desestimulando. Não é a melhor condição, mas também não podemos abandoná-los, tampouco voltarmos às aulas sob risco de contaminação por Coronavirus.

A – Do seu ponto de observação, como a tecnologia está afetando a educação?

De várias formas, mas no geral, vejo com positividade. Não é ruim. Só é difícil a transição. Mudança requer tempo, preparo, formação. Fomos pegos de surpresa. Todos. O professor não é um computador que se programa de uma hora para outra. Do nada nos foi “solicitado” que criássemos conteúdo digital, dominássemos aplicativos e fôssemos dar aula. Aos alunos foi vertical a demanda de atividades. Muitos sem internet e aparelhos. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD, do IBGE, revelou que mais da metade dos brasileiros não têm acesso à internet em casa. Apesar do aumento do número de aparelhos de celular, o acesso à conexão com a internet segue lenta, tal qual a velocidade do serviço ofertado. A educação do Pós-Covid-19, certamente, será mais conectada, mas ainda carecerá de uma grande reestruturação que passa por alguns gargalos: formação de professores, estruturação física das escolas, equipamentos e internet.

A – Nós sabemos que, a depender do ambiente em que esteja inserido o aluno, a tecnologia talvez não seja tão benéfica assim. Falo das famílias cuja realidade financeira não abarca o uso dos instrumentos necessários para a entrada no cenário digital. Como você acredita que o estado poderia intervir de modo a melhorar esse acesso e, consequentemente, a educação pública?

Adna, tenho visto algumas experiências legais por aí. Iniciativas que pelo menos demonstram vontade de ajudar o aluno nesse processo. Infelizmente, estamos passando por um momento turbulento no cenário político e econômico que tem comprometido as políticas públicas de apoio à educação na pandemia. O governo de Pernambuco lançou um programa de aulas na TV aberta e na plataforma digital para a educação básica. Orientou as gerências a aceitarem as aulas remotas via internet. A questão é que um número considerável de alunos segue sem conexão; obviamente, pela falta de recursos financeiros. Vi um município usando os ônibus escolares como pontos de Wifi nos bairros, vi outro distribuindo chips de celular para os alunos acessarem via internet 4G. Quer dizer, tem que chegar nos meninos. As políticas públicas para a educação vêm sofrendo um desmonte violento: cortes de verbas, incerteza sobre o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica), falta de ações que valorizem os profissionais de educação, falta de um discurso que promova e apadrinhe uma educação de qualidade para TODOS. E, assim, o sonho de uma educação minimamente ideal e igualitária fica fosco.

A – Tem algo que eu não perguntei e você acha interessante que o público saiba?

Eu só queria mesmo deixar uma mensagem de esperança, de motivação, de positividade. Não vou romantizar o momento, nem pregar um martírio que não se justifica. Falta quase tudo. Está difícil sim. Mas foca no sentido breve do verbo ESTAR. Vai passar. Vamos passar. E como Darwin até hoje está certo, como fortes, sobreviveremos a tudo isso e evoluiremos para algo melhor. Desvalorização, falta de recursos, privação de liberdade e de espaço de interação, tensões psicológicas de todas as formas. A escola do futuro está nascendo, num parto prematuro e sofrido, mas tem tudo para vingar!

Adna Maria é pernambucana, bibliófila e aspirante a escritora. Tem formação em Jornalismo e Geografia.