SÃO PAULO | Moda, Tecnologia e Inovação

Fotografia: Ivan Reis

Devido à pandemia do novo coronavírus, o isolamento social está presente no cotidiano da maioria dos brasileiros. Especialmente em São Paulo, estado mais afetado pelo vírus, a medida de proteção alterou o movimento do comércio, do trabalho e da vida de todos. Não à toa, escrevo em plena quarentena e encarando uma paisagem não distante de muitos: o quintal de casa.

Esse novo (e angustiante) cotidiano me faz lembrar minha participação em eventos na capital paulista. A discussão sobre moda, ao olhar a realidade, volta ao passado e dialoga com o que nos espera no futuro.

O Farol

Não é novidade que São Paulo, especialmente na região central, é repleta de uma arquitetura que marcou época. O prédio do extinto Banespa, por exemplo, abriga um conjunto de andares exclusivamente dedicados à programação cultural.

A imponência do prédio se tornou um símbolo da metrópole e é impossível não perceber um lustre de proporções faraônicas logo na entrada, além de um ambiente preservado em seu estilo original. Próximo ao elevador, o Bar do Cofre faz jus ao nome ao ter seu espaço, originalmente um cofre subterrâneo, transformado com iluminação e mobília especiais.

O Farol Santander proporciona experiências artísticas inesquecíveis. São mostras fixas – como a história da ambientação de escritórios, gabinetes e sala de reuniões – e temporárias, com instalações de artistas contemporâneos e consagrados. Uma das últimas instalações de grande sucesso, aliás, foi Tarsila para crianças, que tinha espaços interativos inspirados em obras da artista plástica brasileira. Um ambiente lúdico, educativo e completamente “instagramável“.

Arena do 8, por São Paulo Fashion Week

Minha chegada à capital paulista é brindada com essa visita no ano passado. O deslumbre causado pela entrada do prédio (e pelo lustre!) continua em uma sala cujo ambiente foi reformulado por um design arrojado.

O “Arena do 8, por São Paulo Fashion Week” constitui uma série de encontros com grandes nomes da moda que construíram trajetórias de sucesso e que agregaram outras áreas do conhecimento ao universo fashion. Comandadas e articuladas por Graça Cabral, jornalista especializada em economia criativa e uma das fundadoras do São Paulo Fashion Week, ao lado de Paulo Borges, as reuniões conciliaram marcas e parceiros para estruturar um calendário de moda no Brasil que chega em sua 50ª edição neste ano.

A oportunidade de participar de apenas três encontros me mostrou uma face da moda desconhecida por mim: a proximidade com os entrevistados. Os temas foram abordados a partir da experiência de cada um, revelando processos criativos, modos de pensar e de viver em face de uma cultura de moda brasileira.

Maria Prata

Apresentadora da GloboNews, canal em que comandava o extinto Mundo S/A, Maria Prata também passou por veículos  como a revista Capricho (como produtora) e Harper’s Bazaar (como editora de conteúdo), além de ter participado na construção do primeiro site da São Paulo Fashion Week.

Enfatizando seu interesse por tecnologia e os novos impactos da indústria da moda, Prata afirma que o envolvimento com o digital sempre gerou interesse e foi pauta em sua carreira. A vontade de trabalhar com moda e tecnologia, diz ela, é de grande relevância quando se trata de fashion business. “Acabei levando meu olhar de tendência para os negócios”, reitera em sua fala.

A partir desse olhar, a apresentadora assinala como as novas tecnologias mudaram a comunicação de moda, demarcando os sintomas e as consequências para o mercado de consumo. A nova dimensão do luxo – não apenas como exclusividade – nasce de um capitalismo de produção consciente. Marcas repensarão seu funcionamento, diminuindo impactos ambientais e assumindo responsabilidades em seu entorno social. Para o novo luxo, o que importa é a consciência por trás do consumo.

É clara a dimensão comunicativa que a moda ganhou nos últimos tempos. A ascensão dos influencers, o e-commerce, além do mercado publicitário, nos dão uma ideia de como a comunicação digital opera nesse fluxo de informação infinito, mais conhecido como internet.

Alexandre Herchovitch

“Antes de me interessar por moda, eu me interessei por roupas”. A fala do diretor criativo da marca À la Garconne e head, de criação da Olympikos, representa sua familiaridade com moda e estilo desde a infância. Pela confecção de lingerie de seus pais, os tecidos, as máquinas de costura e todo esse universo foi naturalmente incorporado ao seu olhar de designer.

Em uma conversa sobre sua liberdade criativa desde a faculdade, o estilista discorre sobre como fazer negócios na moda. “Quando quero fazer um produto e não sei como, eu vou atrás de quem sabe”, esclarece. Não é difícil encontrar uma diversidade de produtos com sua assinatura: calçados, roupas, produtos para casa, itens de papelaria e muitos outros.

Ao sair do calendário de moda do Brasil, os ideais de vestimenta, para o estilista, se tornaram diferentes. Além de ressignificar peças de guarda-roupas antigos, com a filosofia upcycling, suas coleções não são divididas por estações e seu cronograma de produção atende ao circuito de seu público.

As peças do desfile devem estar prontas logo que for transmitido online. Isso gera um novo sentido para a produção e estocagem de produtos. O see now, buy now (“vejo agora, compro agora”), mesmo criticado, ainda é uma tendência global de consumo.

Foi um papo esclarecedor sobre os bastidores do fashion business, este que afeta nosso comportamento. O que a moda espera de um consumidor, conclui-se, é personalidade e consciência em um mundo de informação que flutua diante de seus olhos.

João Pimenta

Mais do que tratar de tendências, é possível analisar a moda por várias perspectivas. Uma delas é o viés disruptivo de João Pimenta. O estilista possui uma marca de roupas masculinas que leva seu nome e trabalha com uma linguagem de moda peculiar. Propõe uma silhueta inovadora nas modelagens, subverte padrões e leva para a passarela discussões sobre gênero e identidade.

Mas o que faz, de fato, uma roupa inovadora? Temas relevantes ao seu público e o ato de (re)pensar sua construção. Não é difícil encontrar nas passarelas do estilista ternos feitos com trama de palha, camisetas com fiação orgânica ou uma modelagem que desconstrua proporções. Em uma de suas coleções, a modelagem do blazer foi pensada de modo a atender um público específico: mulheres que usam peças masculinas. A preocupação com o caimento da peça ao seio feminino é sugestiva para pensar a forma de usar o guarda-roupa masculino no sexo oposto.

É fato que o preconceito no mercado masculino ainda existe, mas João Pimenta vai além disso ao discutir moda masculina. Segundo o próprio estilista, o desfile está a serviço de uma inovação, olhando para o futuro. Suas preocupações estão em criar, além dos conceitos de passarela, um novo mindset para o homem de hoje, revendo tradições e preconceitos.

 Voltando à realidade…

É inegável que a moda brasileira possui cases de sucesso há anos. A liberdade criativa e a forma de fazer negócios fazem esta fatia do mercado ir além de uma estampa de cacho de bananas. Aqui, a moda nos oferece a autonomia para ser e estar no mundo, significando o presente e construindo o futuro.

Se a crise em que vivemos neste momento é reflexo do que fizemos até agora é uma ponderação a ser respondida com propriedade mais tarde. Em termos de estilo, aquilo que realmente importa – em tempos de pandemia ou não – é a identidade na escolha de peças e tendências que traduzem conceitos. Só o tempo é capaz de maturar respostas, enquadrar momentos. E a moda acompanha isso tudo. Ao captar do espírito do tempo, as roupas dizem muito sobre nós. É bom abrir os olhos. Sempre. 

Ivan Reis é graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Linguística Aplicada. Atua como revisor e preparador de texto, mas gosta mesmo é de ler, escrever e tomar sorvete nas horas vagas. E-mail: ivan.reis@hotmail.com