MODA MASCULINA | Por Mário Queiroz

Créditos: modificada de Ivan Reis

Já perdi as contas de quantas vezes procurei bons livros sobre moda masculina. É claro que existem alguns por aí, mas a falta é grande no mercado de hoje. Os livros sempre fizeram parte da minha vida pessoal e profissional. Além de frequentemente dar uma passada em livrarias e bancas de jornal, trabalhei por nove anos em uma biblioteca (isso mesmo!). Não à toa, sou formado em Letras e, agora, atuo como corretor de texto.

Percorrendo estantes físicas e virtuais, me deparo com uma obra de Mário Queiroz, que é professor e pesquisador de moda e apresentou coleções de sua marca de roupas masculinas na São Paulo Fashion Week por anos, além de ser um dos poucos pesquisadores que se dedicam ao tema.

Convite

“Homens e Moda…” é um livro curto, porém esclarecedor. O prefácio denuncia a qualidade e os propósitos de uma obra que esclarece a masculinidade como pauta consistente. Mais do que analisar estilos próprios do perfil masculino, o autor encara a questão: o que é ser homem hoje?

É claro que tendências machistas também existem, pois nem todos pensamos do mesmo jeito. Para Queiroz, aliás, quando se trata de moda, “obedecemos tão cegamente às convenções culturais que nem buscamos entender seus sentidos. Presos a padrões que estabelecem quais tecidos são masculinos ou quais cores são exclusivas de mulheres, alimentamos o machismo por meio de pequenos hábitos” (2019, p. 12).

Com esse espírito de desvendar os pormenores da masculinidade, o autor apresenta os estilos que compõem o guarda-roupa masculino, o que não faz de Homens e moda no século XXI um manual de estilo; Mário Queiroz vai além disso – e muito!

Fila A

Devo afirmar que a leitura se assemelha a um desfile (com direito a ilustrações do próprio autor) que destrincha referências, elementos e, especialmente, histórias de peças do guarda-roupa masculino. Assim como a essência e sentidos do consumo.

Existem relações interessantes entre a rigidez elegante de um terno e as armaduras de cavaleiros na Idade Média. No traje contemporâneo também estão imbuídos os ideais de uniformidade, proteção e coragem para enfrentar o mundo – do trabalho, neste caso.

Ademais, ficamos cientes do conforto e da descontração do streetwear, por ser um estilo que seguiu das ruas para as passarelas pela tendência de consumo jovem iniciado nos anos 1960 e que ganha cada vez mais força. Tecidos maleáveis, cores fortes e a nova modelagem do jeans fazem uma estética utilitária e simples de vestir.

Na divulgação de tendências, revistas, anúncios e  campanhas publicitárias constroem a imagem de moda do homem que surge desse contexto. Daí uma questão, se me permitem: que elementos formam a imagem do homem de hoje? Essa imagem é a mesma que tínhamos há dez ou vinte anos?

Neste “balaio” de tendências, tudo contribui para formar o conceito de masculinidade. O cinema também age com maestria no imaginário coletivo. Como produto cultural, insere o masculino em seus personagens – heróis durões uniformizados, almofadinhas de figurino impecável ou vilões trendsetters? – e reflete seu tempo.

O que a tela do cinema nos diz traz muito de referências do que se vive. É bom estar atento.

Backstage

A partir de estilos, corpos e contextos de uso de roupas e acessórios, é perceptível que a definição de homem se torna bastante diferente de tempos atrás. Pela variedade e liberdade na escolha de peças, o que era fixo em função de uma masculinidade estanque, se realiza em um contexto mais diverso.

Um exemplo bem perto de nós: a grande extensão do litoral brasileiro faz com que existam diferentes gostos para o surfwear e o beachwear. Eles refletem tendências de cada lugar, com suas necessidades e prioridades. A sunga do carioca pode não agradar ao gaúcho com sua bermuda em tecido impermeável e vice-versa.

Em plena efervescência dos ideais de expressão do corpo e da sexualidade, é possível aliar a moda ao modo de ser e estar no mundo. Isso faz com que conceitos e ideias pré concebidas sejam (e se fortaleçam!) de forma plural, em diferentes corpos, estilos e tendências que enriquecem e (re)definem a masculinidade hoje. Ainda é possível mirar um novo horizonte no futuro.

Ivan Reis é graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Linguística Aplicada. Atua como revisor e preparador de texto, mas gosta mesmo é de ler, escrever e tomar sorvete nas horas vagas. E-mail: ivan.reis@hotmail.com