SAIBA COMO | Publicar seu livro físico de graça e sem burocracia

Da esquerda para a direita: Roberto Saad e Rui Kuroki, sócios-fundadores a Uiclap. Foto Divulgação.

|PING-PONG COM O EDITOR|

Em tempos de Tecnologia da Informação – um dos responsáveis pela atual crise no mercado editorial brasileiro, quem sabe? – você saberia indicar o destino dos livros e das livrarias? E das editoras?

Eu sei, eu sei… Em um mundo onde tudo anda mudando drasticamente do dia para a noite, é difícil surgir com respostas definitivas para tais perguntas. Por isso mesmo, hoje trago um bate-papo que talvez nos acene com aquela luzinha no fim da passagem subterrânea.

No início de fevereiro, entrevistei o autor iniciante Ernesto Araújo, que acabou por nos indicar a Uiclap, uma plataforma que promete iniciar uma revolução na publicação dos livros físicos. A proposta da startup é de publicar qualquer livro, escrito por qualquer pessoa, sem burocracia, com custo zero para autores e com valores baixíssimos para os consumidores. Então, o ping-pong de hoje é com Roberto Saad, um dos co-fundadores da Uiclap.

Nesta conversa, Saad explica como enxerga o mercado literário em tempos disruptivos, como surgiu a ideia de criar uma plataforma de autopublicação e aonde pretende chegar com ela.

 A – Roberto, seja bem-vindo ao ARTICULEI. Em primeiro lugar, conte-nos: por que “Uiclap”?

Todos esperam um grande significado para o nome, mas a verdade é que não tem (risos). Precisávamos apenas de um “PontoCom” com o domínio livre. Após buscar mais de 3 mil domínios diferentes, encontramos uiclap.com livre e resolvemos adotar.

A – Qual o modelo de negócio da Uiclap e há quanto tempo a plataforma está em funcionamento?

Somos uma startup de autopublicação, venda, produção e distribuição de livros impressos sem custo para o autor. Nosso modelo de negócio é completamente diferente de editoras tradicionais. A plataforma está funcionando desde novembro de 2019. É bem recente e já se tornou a editora que mais cresce. Em dois meses e meio já são mais de 250 títulos publicados.

A – Como surgiu a ideia de criar uma plataforma digital de autopublicação de livros físicos?

O mercado de geração de conteúdo pode ser dividido em quatro partes: conteúdo escrito, conteúdo fotográfico, conteúdo em vídeos e conteúdo musical. O Instagram revolucionou o mercado de conteúdo fotográfico ao permitir que fotógrafos profissionais e não profissionais pudessem publicar seus conteúdos sem custo e hoje este aplicativo é uma ferramenta muito importante de comunicação – assim como no mercado de vídeos funciona o YouTube e, no de músicas, o Spotify. No mercado de publicação de conteúdo escrito, por sua vez, existe uma lacuna. Grosso modo, a maneira de se publicar um livro físico continua sendo feita, ainda hoje, como há muitos anos: num processo demorado, custoso e, o mais importante, refém das editoras, que acabam por decidir o que o mercado pode ou não ler. Um grande absurdo, praticamente uma censura.

A – Censura…?

Veja, a publicação de um conteúdo deveria ser feita com um custo baixo e não deveria ser submetida a uma triagem por parte das editoras. Por exemplo: os originais do Harry Potter foram rejeitados por muitos desses editores até que um aceitou; [e, a partir daí,] foram vendidos tantos livros que a autora J. K. Rowling entrou para a lista de bilionários da Revista Forbes. As editoras não devem decidir o que pode ou não ser lido pelo mercado. Assim como esse exemplo que citei, existem muitas outras obras rejeitadas que depois se tornaram best-sellers. Talvez, muitos dos conteúdos rejeitados [pelas editoras tradicionais] sejam também potenciais best-sellers. No mercado brasileiro, somente 2% dos conteúdos apresentados às editoras é aprovado; ou seja, 98% é rejeitado. O que assemelharia a vermos o YouTube e o Instagram aprovando somente 2% do seu conteúdo.

A – E é aí que entra a Uiclap…?

Sim, a Uiclap tem como objetivo eliminar esta rejeição por parte das editoras e, com o uso da tecnologia, minimizar a dependência do autor para com elas, garantindo a publicação, a venda, a produção, a distribuição e o acesso aos canais de venda, valendo-se da impressão sob demanda. Nós queremos ampliar significativamente o mercado para o consumidor e criar oportunidades para a geração de conteúdo escrito, com modelo de negócio facilmente replicável para outras regiões, em âmbito nacional e internacional.

A – E quanto ao e-book? Há espaço para esse tipo de publicação na plataforma?

Nós não acreditamos em e-book. Aliás, o mercado também não. O e-book é uma solução para tentar suprir a falta de oportunidade na publicação dos livros impressos; ou seja, quem não consegue publicar de maneira tradicional, faz um e-book. Outro ponto importante é que os leitores preferem o impresso: eles gostam de tocar no livro, fazer anotações, dar de presente. Enfim, o mercado de livros digitais cresce somente pela falta de oportunidades de se publicar livros impressos. Esperamos mudar isso (risos).

A – Pelo que notei a partir do seu site, para que o autor tenha sua obra publicada, é preciso que o livro esteja pronto para upload, confere? Vocês oferecem algum serviço além da disponibilização na plataforma e da impressão? Por exemplo, um serviço de propaganda da obra?

Bom, nós não somos uma ferramenta de criação, nós somos uma plataforma de autopublicação, venda, produção e distribuição de conteúdos impressos. Portanto, o autor deve, sim, enviar seu conteúdo pronto para ser publicado. Se ele quiser criar conteúdo, no entanto, a Uiclap indica alguns parceiros. Com relação à propaganda, nós divulgamos as obras em nossas redes sociais, mas é muito importante que o autor entenda os três passos necessários à sua venda: primeiro, acreditar em sua obra (essa é a principal força motivacional para investir energia e tempo); segundo, formatar muito bem o seu livro no que concerne ao design e ao conteúdo (entendendo, inclusive, que a capa é uma vitrine de venda); terceiro, não acreditar que o livro se venderá sozinho (para tanto, a propaganda boca a boca constitui uma ótima forma de divulgação).

A – Enquanto editores, vocês leem o que publicam? Supondo que leiam e encontrem algo incomum ou não vendável no livro – como a falta de revisão, por exemplo – vocês chegam a conversar com o autor, sugerindo essa revisão, ou decidem publicar mesmo assim?

Não, nós não lemos o conteúdo. O conteúdo é publicado pelo autor em tempo real, é quase como se fosse publicar uma foto no Instagram ou um vídeo no YouTube. Falar de algo não vendável por questões tradicionais é muito vago, pois quem irá decidir se algo é ou não bom é o mercado. Por exemplo: em quantos vídeos do YouTube não vemos uma pessoa falando “errado” e, mesmo assim, o público se diverte o suficiente para que o vídeo alcance milhões de visualizações e viralize? Para o conteúdo escrito, a coisa deve funcionar da mesma maneira. Se agradar o mercado consumidor, por que não? A Uiclap veio para quebrar paradigmas, democratizar a publicação de livros impressos, descentralizar o mercado, abrir portas.

A – Algumas editoras não permitem que seus autores disponibilizem suas obras em outras plataformas. Como vocês lidam com isso?

Nós não exigimos exclusividade nenhuma. Entendemos que o autor deve ter a liberdade – até por ser o dono do conteúdo – de publicar onde quiser; inclusive, ele também pode “despublicar” na Uiclap em tempo real.

A – Algumas das editoras atuais foram fundadas por ex-funcionários de editoras antigas, como é o caso da Ubu, idealizada pelas ex-diretoras da Cosac Naify. O mesmo aconteceu a Uiclap?

Não viemos do mercado editorial. Apenas enxergamos uma oportunidade no mercado presente.

A – Qual a formação dos idealizadores da Uiclap?

Nós temos dois sócios-fundadores, o Rui Kuroki e eu, Roberto Saad. Eu sou formado em Administração de Empresas e pós-graduado em Gestão Contábil e Financeira. Posso te dizer que empreendi a vida inteira e sempre tive sucesso em criar e vender empresas. Já o Rui é o sócio responsável pelo desenvolvimento do sistema da Uiclap. Estudou um ano na Poli da USP (Universidade de São Paulo), trabalhou na Fundação Vanzolini (USP Engenharia), na agência VINIL (que desenvolve sistemas para Fnac, Sony, Terra, etc.) e foi sócio da KTY, uma das maiores empresas de engenharia do Brasil, até vendê-la.

A – Como vocês enxergam o mercado literário do futuro?

O mercado cresce e muito, o que falta são oportunidades e descentralização. Num futuro próximo, com certeza irão surgir muitas outras Uiclaps. É a tendência; é bom para todos. O autor realiza o sonho de publicar, escolhe quanto quer receber por venda e não precisa de investimento. As editoras tradicionais, ao utilizar uma ferramenta como a Uiclap, não vão precisar mais rejeitar conteúdos e menos ainda ter problema de estoque, pois produzimos sob demanda e oferecemos ao mercado uma gama maior de produtos a um preço muito mais baixo.

A – Qual a média de valor de um livro da Uiclap para o consumidor?

O preço médio do livro é de 20 reais.

A – E o prazo de entrega da plataforma?

Pedimos até 5 dias úteis para produzir e postar nos Correios. A partir disso, o prazo já fica sob a responsabilidade dos Correios.

A – Há algo que vocês consideram importante dizer ao público?

A Uiclap veio para ficar. Nós formamos um modelo disruptivo e quebramos paradigmas. Oferecemos uma solução inteligente e simples para o mercado editorial: aqui todos os participantes saem ganhando. Somos uma empresa brasileira com poder de inovar o mercado editorial mundial. Será um prazer tê-los conosco.

Adna Maria é pernambucana, bibliófila e aspirante a escritora. Tem formação em Jornalismo e Geografia.