PRIMEIRO ENCONTRO | Cidade 100% inteligente

Créditos: Gerd Altmann, por Pixabay. Imagem Alterada.

|CRÔNICA|

A partir de agora, querido leitor, você e eu começamos o nosso relacionamento. Não pense, porém, que este início de relação se dará em qualquer lugar e de qualquer forma. Claro que não. Nós merecemos mais que isso. Vamos nos conhecer numa espécie de Atlântida contemporânea: uma cidade 100% inteligente.

Embora não saibamos se nesta Atlântida a tecnologia equivale à daquela descrita por Platão, é quase certo de que aqui o ouro e a prata são trocados por uma coisa estranhíssima chamada processamento de dados. Em nossa ilha, aliás, você e eu nos esbarramos enquanto navegávamos por um dos vários Apps de troca de experiência, lembra?

Mas, para não colocar a imagem na frente dos pixels, deixe-me contar que, neste momento, estamos, Alexa e eu, em nossa casa: uma construção de madeira, com energia convertida de solar para elétrica por meio de painéis fotovoltaicos e sensores internos dispostos a verificar minha saúde ao meu comando. Gosto do lugar. É agradável. Inteligente. Sustentável.

Acabo de questionar Alexa sobre as notícias do dia. “Subiu para dez o número de equipes de caça a Pokémon que impedem a passagem de transeuntes na via especialmente arborizada para pedestres, localizada próximo à casa”, sua voz retumba no vazio.

“Alexa, chame o veículo”. “Alexa, destrave a porta de saída”. “Alexa, fale sobre o tempo”. “Alexa, somos amigas?” – E ela se enche de dúvidas quanto à última pergunta, tadinha. Não a julgo não. Foi pensada para responder às questões mais objetivas. Que atire a primeira pedra quem não tiver defeitos, disse o filho do Criador Master.

Como vê, decidi ir ao cibercafé de carro mesmo. Os sensores responsáveis pela medição de minha pressão arterial e batimentos cardíacos de novo apontaram para o fato de que nos últimos tempos não ando em condições de enfrentar agrupamentos.

O carro, autônomo, está à minha espera. Não é verdade que não tenho com quem conversar no trajeto até o ciberespaço! Também neste momento a Alexa está comigo. Enquanto minha cuidadora e companheira constante, ela segue, com um equilíbrio de dar inveja, informando sobre o tempo de chegada ao destino, controlando o ar-condicionado do automóvel, fazendo-me confortável.

Chegamos, acaba de avisar Alexa já destravando a porta. Viu? Quem precisa de gente quando se tem um transporte auto-dirigente e um software que regule suas entradas e saídas? Todos os dias rezo para que o homo deus de Harari nos livre de um grande tsunami no sistema…

Espera, vou te mostrar como é linda a  vegetação hidropônica que envolve este ciberlugar. Além de visualmente bela, ela contribui para um ciberambiente super cibersustentável, não é maravilhoso?

Agora estou entrando na cibertenda… Só um minuto… Estou na frente da cibermáquina pedindo um ciber… ops!… um café. Pedindo um café.

Você ainda está aí? Ah, ótimo! Aqui o nosso bate-papo será mais tranquilo, sabe? Podemos ficar mais à vontade. A bebida depois eu pago com bitcoin, não precisa se preocupar. Fale-me da sua cibervida…

E se a gente combinasse de se encontrar sempre por aqui?

Pode ser semana que vem?

Adna Maria é pernambucana, bibliófila e aspirante a escritora. Tem formação em Jornalismo e Geografia.